A rotina do Jânio

Postado por: Júlio César de Medeiro

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Jânio andava meio triste, cabisbaixo e desanimado. Estava preso numa rotina que achava estar lhe matando aos poucos. 
No trabalho os papéis, e-mails, reuniões, telefonemas, colegas e até o cafezinho eram frios e sem sentido, se repetindo dia após dia. Em casa não era diferente. Todos com seus afazeres, compromissos e planos. Transpiravam energia e se sentia a vida pulsando a um quarteirão de distância. E Jânio ali, com aquela sensação de que havia falhado miseravelmente e perdido o trem para a felicidade.
Então um colega do trabalho comentou que seu pai não podia mais dirigir por conta da idade e que por isso estavam vendendo seu velho fusca. Foi além, fez uma proposta praticamente irrecusável. Muito mais por consideração ao colega que por entusiasmo, Jânio comprou o fusca mesmo sem nunca tê-lo visto. 
Demorou alguns dias até finalmente ir buscar o carro. O fusquinha não era nenhuma relíquia, nem uma raridade, muito menos um exemplar de coleção, bem ao contrário. Era um fusca comum bem surrado, com a pintura desbotada, um para-choque meio torto, um farol quebrado, um pneu murcho, algumas ferrugens pelos cantos e coberto por uma grossa camada de poeira, enfiado no fundo de uma garagem, repousando sobre uma poça de óleo.
Mas foi amor a primeira vista. Aquele amontoado de ferrugem fitou Jânio bem no fundo dos olhos e desse dia em diante ele nunca mais teve um dia sequer de rotina.

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