Um defeito de cor!

Postado por: Ari Antônio dos Reis

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Esta é a obra de autoria de Ana Maria Machado que trata da epopeia de uma mulher negra, sequestrada ainda criança na África e trazida à força para o Brasil para o trabalho escravo. A menina tornou-se mulher, adquiriu a sua liberdade e tornou-se empresária de renome. A obra trata de uma carta escrita por ela ao seu filho, roubado pelo companheiro branco e vendido para saldar dívidas de jogo. A leitura deste romance permite que se tenha um mínimo de noção, para além das obras de história, do significado da escravidão para os negros. A narrativa torna-se mais significativa pelo fato de ser escrita na ótica feminina. Primeiro a criança, depois a mulher e, finalmente a mãe foram atingidas pelo flagelo da escravidão. E tentou-se sobreviver, superar na medida do possível e da dor.  

Uma outra obra, de cunho jornalístico, ajuda a compreender o processo escravagista no Brasil que durou mais de três séculos. Trata-se da trilogia escrita por Laurentino Gomes, “uma história da escravidão no Brasil”. O primeiro volume, intitulado “escravidão: do primeiro leilão de cativos em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares”, já está à disposição nas livrarias.

Felizmente a lucidez e o compromisso com a história de muitos intelectuais têm contribuído para que este fenômeno, que marcou a trajetória do Brasil não seja esquecido ou tratado de forma equivocada.   A escravidão moderna, iniciada no século XV, foi original pelo número de pessoas atingidas (só o Brasil recebeu em torno de cinco milhões de cativos), pela forma como foi organizada, tempo de duração e por ter interferido de forma avassaladora na economia dos povos africanos.

Não é possível desconhecer esta história. Ela se manifesta nas condições de vida dos descendentes daqueles que no passado foram feitos escravos. Não é “vitimismo”, mas a constatação de uma realidade explicitada em diferentes dados quanto ao número de desempregados, nível e condições de emprego, acesso ao tratamento de saúde, situação educacional, expectativa de vida, dentre outros.

Nos diferentes processos de aferição de dados, a população negra se apresenta como a mais vulnerável.   Isto porque no período pós escravidão os negros não tiveram de parte do Estado brasileiro nenhum aporte que permitisse que retomassem suas vidas com alguma forma de incentivo. Pelo contrário, quando findou a exploração laboral dos negros, buscou-se de diversas formas eliminar os resquícios da sua presença no Brasil. A cor do Brasil, acentuadamente negra foi vista como defeito. Passou a vigorar a ideologia do branqueamento, sustentada por muitos teóricos. Compreende-se então o empenho pela vinda dos imigrantes europeus. Era para substituir a mão de obra ora cativa e tornar o Brasil mais branco.  Como este objetivo tornou-se impossível, pelo número de descendentes dos povos africanos aqui presentes, construiu-se o discurso da democracia racial, tentando-se harmonizar teoricamente as relações sociais marcadas pelo racismo, preconceito e discriminação racial, sustentáculos teóricos do projeto escravagista. A realidade dura dos negros se faz o contra discurso da democracia racial. Onde a vida é ameaçada a cada momento, por diferentes fatores, não existe democracia.

Neste mês de novembro, quando se comemora o dia da consciência negra, em memória de Zumbi dos Palmares é salutar revisitarmos a história da escravidão. É uma boa chave de leitura para entendermos o Brasil atual.    

Pe Ari Antônio dos Reis

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