Seu Adolpho

Postado por: Júlio César de Medeiro

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Esses dias lembrei-me do seu Adolpho, um argentino carrancudo que conheci num grande condomínio de prédios onde morei há muitos anos. Era tão velho quanto o seu nome escrito com “ph” denuncia. Curiosamente tinha um sotaque carregado nos erres e parecia sempre falar muito bravo. Nunca conheci outro argentino assim.

Logo nos meus primeiros dias no condomínio, tive a primeira interação com o seu Adolpho. Enquanto tentava estacionar meu fusca na apertada vaga entre um SUV e uma perua, passou desfilando uma Mercedes modelo antigo, toda preta, vidros escuros, que parou logo adiante. Desceu uma figura magra, curvada e com o semblante carregado, cabelos muito alvos e olhos de um azul pálido, mas intensos, firmes e hipnóticos.

- Novo na prrrrrédio? Perguntou sem nem ao mesmo um bom dia enquanto me media dos pés à cabeça.

- Sim, sou novo aqui. Me mudei essa semana e vim de… Fui interrompido abruptamente por outra pergunta.

- Esse é a sua carrrro?

- Sim, sim, esse é meu fusca, é ano 68 e…

- Odeio fuscas.

Girou nos calcanhares e com as mãos para trás, naquela posição militar de prontidão, se foi para o elevador sem se despedir.

Alguns dias mais tarde o encontrei novamente, dessa vez no elevador, pois ele morava na cobertura do meu prédio.

- Bom dia! Como vai? Sou o rapaz do fusca. Me chamo…

- Sua carrrrro suja de óleo a chão do garrrrrachem. Prrrovidencie a limpeza e conserrrte aquele coisa barrrrulhento. Disse me fitando diretamente nos olhos com um ódio mortal.

Dali até a garagem fomos no mais completo silêncio. Ao descer do elevador, me mirou mais uma vez e resmungou uma frase em espanhol:

- Käfer ... schlechte Idee ...

Algumas semanas depois acabei traduzindo a tal frase. Mudei-me logo em seguida.

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