Não tomar o nome de Deus em vão!

Postado por: Ari Antônio dos Reis

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Este preceito, o terceiro mandamento da Lei de Deus, nasceu como construção teológica durante a experiência do povo de Deus na travessia do deserto no desafio de construir uma nova forma de relação alternativa às relações de escravidão no Egito. Na travessia sentia-se Deus presente na vida do povo, conduzindo e orientando rumo à terra prometida, onde corria leite mel. Este povo descobriu o quanto o nome de Deus era sagrado.

Mais tarde esta experiência foi contada e tornou-se referência na tradição judaico-cristã, parte dela explicitada nos salmos, orações do povo de Deus. Os salmos rezam a criação, o êxodo, a travessia do deserto, a libertação dos opressores, as dificuldades superadas, o ideal de justiça, a construção da fraternidade, a vivência da justiça, da paz e da alegria. Eles revelam uma imagem de Deus experimentada ao longo da história:  o criador de todas as coisas que deixou ao ser humano a tarefa de zelar e cuidar da obra criada (cf. Gn 2,5); o libertador, que não fica omisso quando os clamores do seu povo chegam aos seus ouvidos (cf. Ex 3 7ss); o misericordioso, que se coloca ao lado do ser humano na disposição de recuperá-lo quando cai no erro (cf. Lc 15,1ss). Estas três imagens de Deus a saber, criador, libertador e misericordioso, estão fundamentadas na Sagrada Escritura e são uma referência na sua conduta para a humanidade.

O nome de Deus sempre foi muito caro para toda a humanidade. Não é apenas um nome. É uma experiência feita. O ser humano credita o que é, e o que faz à força de Deus. Por traz das expressões “se Deus quiser; Deus te ajude ou Deus te abençoe” está um sentido profundo de Deus que a racionalidade humana não alcança. Entre outras coisas, a pessoa se compreende que sem Deus não é nada. É o sentido do divino presente na trajetória humana. É o confiar-se a Deus. 

Contudo, em nossos dias tem aparecido com força o nome de Deus. Infelizmente com uma conotação diferente ao que se aprendeu a partir de uma boa exegese hermenêutica da Sagrada Escritura. Coloca-se, via discurso, Deus como avalista de práticas totalmente contrárias àquelas que aprendemos a partir do estudo da Bíblia que é, para toda a humanidade, a explicitação mais apurada da sua revelação. O nome de Deus não é pronunciado no sentido de uma experiência de fé e compromisso com a conversão ou com uma vida ética e justa. Em nome de Deus se explicitam preconceitos e racismos; defende-se a violência como caminho de relação social; desconsideram-se povos e culturas milenares; criam-se leis que aumentarão cada vez mais a pobreza e a miséria; diz-se que o ser e pensar diferente são errados e por isso, devem ser tratados como violência. Então a pergunta: que Deus é este? É possível usar do nome de Deus para justificar projetos contrários ao seu dom de amor e bem para toda a humanidade?

Nossa linguagem e nossas imagens são muito limitadas para expressarmos quem é Deus. Ele sempre será um mistério. Contudo, convida-nos a estar com Ele, porque veio até nós através do seu filho Jesus Cristo.  Entretanto, na insignificância da nossa linguagem para expressar quem Ele é, podemos denunciar que não se deve tomar o nome de Deus em vão.  

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