Fraternidade e vida: dom e compromisso

Postado por: Ari Antônio dos Reis

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A Campanha da Fraternidade de 2020 sugere a reflexão do agir cristão a partir de dois enfoques. O primeiro diz respeito à fraternidade. Esta palavra é oriunda da palavra latina frater que significa irmão.  Fraternidade se traduz como a vivência entre irmãos ou proximidade entre irmãos marcada pelo amor, solidariedade e prática da misericórdia. Não é algo dado de forma mágica. Esta vivência fraterna é construída no cotidiano através da doação, serviço e renúncia. Quando se sugere uma campanha da fraternidade objetiva-se recuperar a dimensão caritativa do ser humano, fundada no amor que leva a pessoa ao encontro do seu semelhante na perspectiva do serviço e da partilha, superando qualquer pretensão egoísta ou individualista. Jesus, que fez da sua vida um serviço à humanidade, sugeriu este princípio para os seus discípulos (cf Mc 9, 35-37).

O outro enfoque é a vida. A proposta sugere um olhar para a vida em três dimensões intercaladas: pessoal, do semelhante e do mundo criado. Nisto cabe uma ligação com a tradição filosófica africana que afirma que uma vida feliz depende da harmonia entre as dimensões: pessoal, com o semelhante e com a criação, acrescendo a necessidade da harmonia com o criador. Compreende-se que uma vida marcada por cisões nestas relações é vida infeliz, com o risco de ser abreviada.

 A vida é refletida nesta campanha como dom e compromisso. Dom como oferta gratuita de Deus.  Ele criou o ser humano e lhe soprou o hálito da vida, o espírito vital. No universo da criação (Gn 1,1ss) cada ser existente é uma oferta de Deus e o ser humano está na centralidade desta oferenda. Contudo, é uma centralidade interligada como as demais obras criadas. A noção do ser humano, com existência desligada das demais obras criadas, é um erro interpretativo de parte do pensamento moderno, com graves consequências para a humanidade e para a criação. É uma irracionalidade. Neste sentido, é oportuno revisitar a compreensão judaico-cristã da vida humana como dom de Deus, contudo com a missão de cultivar e guardar toda a obra criada (cf. Gn 2,15). A Encíclica Laudato Si tematiza esta necessidade.

O reconhecimento da vida como dom divino implica também em responsabilidades, ou seja, compromisso de cuidado com ela. É a outra palavra chave da temática proposta pela campanha da fraternidade. É compromisso no sentido do zelo e respeito pela vida em suas diferentes manifestações, como explicita o lema extraído do evangelho de Lucas: “viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10, 33-34). Jesus contou esta parábola respondendo a indagação do mestre da lei sobre quem seria seu próximo. No centro da parábola está a atitude do samaritano que viu o homem ferido e aproximou-se dele para cuidá-lo, não porque o conhecia, mas porque ele estava necessitando. Foi uma iniciativa diferente da atitude sacerdote e do levita que também viram. Entretanto afastaram-se dele. O samaritano viveu a experiência do amor serviço aproximando-se do homem ferido movido pela compaixão. A compaixão e não a indiferença permitiu que cuidasse daquela vida. Possamos viver este compromisso ao longo da caminhada quaresmal. Cuidemos da nossa vida, da vida do semelhante e da vida do mundo criado.


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