Quando é difícil lavar as mãos

Postado por: Ari Antônio dos Reis

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Estamos há duas semanas no processo de quarentena em vista da diminuição do pico de transmissão do “coronavirus” (COVID 19), e assim dar fôlego ao sistema de saúde para cuidar dos casos mais graves. O aumento excessivo de pessoas contaminadas, aliado aos doentes que já estão em tratamento, devido a outras doenças, colocaria em nosso sistema de saúde em colapso. Em resposta a este possível risco e de uma forma lúcida, os gestores estão sugerindo a quarentena, orientação da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Infelizmente na contracorrente das referidas medidas, reconhecidas mundialmente pela sua eficácia na diminuição da propagação do vírus, o Presidente da República sugere o contrário e resiste a tomar consciência sobre a gravidade da situação. Chamou atenção a sua fala no dia 26 de março de que os brasileiros estariam imunizados porque “estão acostumados a viver em meio ao esgoto”.

A expressão utilizada desnuda uma realidade muito difícil no Brasil, a ausência de saneamento básico, já refletido na Campanha da Fraternidade de 2016. Por saneamento básico compreendemos o acesso à água potável, recolhimento e tratamento de esgoto doméstico e pluvial, recolhimento e destinação dos resíduos, moradia digna. O Brasil tem um grande déficit quanto a estes serviços, o que deixa boa parte da população suscetível a muitas doenças. O investimento em saneamento básico é mais barato do que o tratamento de enfermidades causadas pela sua ausência. Contudo esta lógica parece ainda desconhecida pelo Estado brasileiro.

Quanto a esta questão, chamo atenção para um aspecto que é fundamental no combate ao COVID 19, o acesso à água potável. Temos ouvido insistentemente de parte dos profissionais da saúde que a atitude de lavar as mãos com água e sabão é fundamental para evitar a contaminação. Porém, cerca de 35 milhões de brasileiros (cf. Instituto Trata Brasil) não têm acesso à água potável em seus lares. Eles estão na área rural, nas favelas e periferias. São grupos minoritários que correm risco não só da contaminação individual, mas de potencializar uma corrente de transmissão que poderá vitimizar muitas pessoas. Aqueles mais frágeis terão dificuldades, pela própria condição social, de encontrar um tratamento adequado pelo difícil acesso e pelo risco de encontrar os hospitais superlotados. 

Isto permite que voltemos nosso olhar a um contexto que estava ficando escondido em nome do projeto neoliberal tardio. Ainda somos um país pobre, desigual e injusto.  A economia puramente de mercado não dará conta de resolver esta lacuna. Infelizmente muitos brasileiros não poderão chegar em casa e “lavar as mãos” porque não terão água potável, um direito humano universal. 

Lembremos da proposta da Campanha da Fraternidade deste ano, fraternidade e vida: dom e compromisso. O lema “viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10, 33-34), compreende também o agir para que o Estado esteja realmente a serviço dos que estão caindo a beira do caminho pela ausência de políticas públicas voltadas à vida digna de todos os brasileiros.

Que todos possamos chegar em casa, lavar nossas mãos e tomar um copo de água potável.

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