Jovens ainda escolhem ser professoras

Postado por: Nei Alberto Pies

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Apesar de saberem que esta profissão, na atualidade, é exigente, mal remunerada e pouco valorizada, as jovens declaram o seu amor à profissão docente e o desafio de realização pessoal e profissional através da educação. Em comum, ambas estudaram e se certificaram no Ensino Fundamental em escolas públicas.

O fato de conhecerem a realidade das escolas públicas e de seus grandes desafios, é algo super importante neste contexto. Em suas escolas, com certeza, encontraram professores e professoras inspiradores/as, mas também se deparam com profissionais desmotivados e doentes e que, por vezes, devem até ter desestimulado as mesmas para não escolherem a profissão docente.  Por isso mesmo, seus depoimentos são muito importantes para aqueles e aquelas que ainda acreditam nos potenciais da educação, embora esta (a educação) não seja a salvação ou a única saída para um país.

Juntamente com a educação, as gerações mais jovens deveriam ter oportunidades mais igualitárias de estudo, de profissionalização e de geração de renda; deveriam ter mais estímulos quando a condição de suas famílias não permite; deveriam ter escolas mais e melhor equipadas para o desenvolvimento de suas habilidades neste momento histórico.

A produção desta matéria ocorreu a partir de um roteiro de perguntas que foram respondidas pelas jovens estudantes. Seguem as perguntas feitas a elas: a) O que fez você decidir pela profissão docente (ser professora)? b) Como vês hoje a situação dos professores e professoras, sobretudo os que atuam em escolas públicas? c) O que respondes aqueles que te desestimulam a ser professora? d)Como esperas realizar-te pessoal e profissionalmente, sendo professora num futuro próximo? e) Que boas lembranças ou ensinamentos guardas dos teus professores e professoras? f) O que os professores e a sociedade deveriam fazer para resgatar o valor da profissão professor?

Bárbara Vizini, estudante da Faculdade de História na UPF (Universidade de Passo Fundo) no quinto semestre, tem 20 anos, nascida no interior de Sarandi, RS. Bárbara declara-se otimista e aposta na mudança do mundo através dos jovens e a partir da educação.

Bárbara começou dizendo: “eu não perdi esperança no futuro, e o futuro virá pelos jovens que, para poderem fazer um bom futuro, precisam de boa instrução.

A situação dos docentes hoje, sem dúvida, é de descaso. O salário não é digno para a profissão, o respeito se torna cada vez mais escasso, o professor cada fez mais não é reconhecido dignamente.

Quando contava para pessoas que ia fazer a faculdade de História e ser professora, muitos olhavam nos meus olhos e diziam: “não dá dinheiro, vai morrer pobre, bah, tem certeza?” As respostas eram várias, mas quase num total de negativas. E eu respondia para essas pessoas que não era pelo dinheiro e perguntava se elas tiveram, tem ou terão tempo para ensinar aos filhos, netos, sobrinhos, enfim … E a resposta era somente o silêncio.

Sobre seu futuro como professora, Vizini espera se realizar sendo uma professora comprometida com o aprendizado efetivo do educando, que não passe somente conteúdos, mas também consiga fazer alguma diferença social com o seu trabalho.

Sobre seus professores, afirma que “de cada professor (a) tenho recordações diferentes mas, sem dúvida, a que mais me marcou foi a professora que me ensinou a ler e escrever. Ela sempre dizia que repetir era necessário para aprender, que é persistindo que se alcança o que quer.

Acredito que os professores formam as bases de uma sociedade, ” o professor é a profissão que forma todas as profissões ” mas para resgatar o valor da profissão docente, acredito que a sociedade precise ainda reconhecer e respeitar os docentes, assim como entender que são efetivamente necessários para se ter uma sociedade”.

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Outra jovem, Gabriela Helis Scherer, 16 anos, moradora da cidade de Dois Irmãos, RS, já no segundo ano do Magistério no Instituto Estadual de Educação Sapiranga, em Sapiranga, RS.

Assim escreveu:

“Acredito que meu interesse pelo magistério começou com experiências que tive com meus antigos professores dentro de sala de aula e fora, por sempre ter a vontade de ensinar e sendo muito mais do que só a matéria”.

Sobre a situação dos professores e escolas diz que “está bem complicado, pois vem pouca verba para as escolas (para a compra de materiais) e também pelos salários dos professores que não é valorizado”.

Sobre a percepção dos outros sobre sua escolha, a de ser professora, disse que “a maioria das pessoas comentam sobre o dinheiro, e eu responderia que dinheiro não é tudo (sei que é ele que paga minhas contas), mas a gratificação que tenho de ensinar e aprender todos os dias com os alunos não tem preço”.

Sobre a realização pessoal e profissional que espera no futuro da profissão: “Amar o que eu faço, e passando todo o meu conhecimento para os alunos”.

Quando perguntada sobre a lembrança de professores e o que precisamos fazer para dar mais dignidade à profissão docente, Gabriela afirma que lembra que “o olhar que eles têm além do aluno, mas como um ser humano, que todos têm dias difíceis. E querem sempre levar um outro ensinamentos, muitas vezes envolvendo a sociedade e nos fazendo abrir os olhos para tudo que está acontecendo nesse meio.

Além dos professores serem importantes para o crescimento de crianças e adolescentes, também são fundamentais na construção do país. A sociedade, ou seja, os pais dos alunos devem se mostrar disponíveis para a escola, participando dos eventos e atividades.

A valorização tem a ver também com a parte monetária mas não somente a financeira, o investimento nas escolas, em cursos superiores, em geral, na educação é de extrema importância para o aperfeiçoamento dos professores e também para motivar novas pessoas para a profissão”.

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Júlia Lengert, 15 anos, moradora da cidade de Passo Fundo, RS, aluna de escola da rede municipal. Durante o ano de 2019, no seu nono ano, revelou desejo de seguir carreira no magistério. Estuda na Escola EENAV (Escola Estadual Nicolau de Araújo Vergueiro), uma referência na formação de professores na cidade e na região, através do Curso Normal, antigo Magistério.

A jovem estudante começa sua participação nesta matéria dizendo:

“Sempre admirei boa parte de meus professores, e esse sentimento só foi crescendo ao passar dos anos. Ser professor é passar todo o seu conhecimento, não só em determinada matéria, mas também sobre a vida e suas dificuldades, para assim tornar seus alunos pessoas preparadas para o futuro, e é isso que me encanta”.

A jovem acredita que “os professores, não recebem seu devido valor, não só pelo salário precário que ganham, mas também pelo desrespeito de alunos em sala de aula, onde muitas vezes são ameaçados ou até mesmo agredidos por exercerem sua profissão.

Sou nova ainda, e não sei exatamente em que área quero trabalhar, mas escolhi a profissão por amor e esperança. Amor ao próximo, em passar meu aprendizado a várias crianças e adolescentes, e esperança de que um dia as pessoas não escolham suas profissões por dinheiro, mas porque realmente gostam do que fazem. Sei que são muitas as dificuldades, mas acredito que vale a pena.

Meus professores são minhas inspirações, aqueles que trabalham com amor tem minha total admiração, pois mesmo quando não estão em um bom dia, ou passando por uma fase difícil, deixam os problemas de lado para dar uma boa aula, planejar uma boa prova, ou muitas vezes nos ajudar com nossos próprios problemas.

Lutar por remunerações melhores, receberem formações mais qualificadas e melhor pensadas para melhorar a prática de ensino, e serem mais respeitados em salas de aula. Afinal, professor é a base de todas as profissões.

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Maria Gevana Lorca Casassola, 15 anos, moradora de Passo Fundo, estudante de escola p no primeiro semestre do Curso Normal, antigo Magistério, também participa com entusiasmo e empolgação, depois de recente ingresso no Curso.

A jovem estudante afirma que: “o magistério é uma das atividades profissionais mais lindas e gratificantes que existem, desde pequena sempre gostei de ensinar meus primos (já que eu sou a mais velha, tudo que eu aprendia na escola passava para eles). Passar para outra pessoa algo significativo, dá uma sensação de dever cumprido e é interessante que parece ter haver com nascer com esse dom, pois é algo que a gente se apaixona apenas por se identificar com aqueles que nos cuidaram desde pequenos”.

Afirma também que “vê a situação dos professores e das escolas bastante complicada, algo difícil e até desafiador ao mesmo tempo, porque a violência nas escolas têm sido algo constante e vemos que a tecnologia trouxe muitas coisas boas mas, também, coisas que levou o ser humano não respeitar mais o outro, passando por cima de regras. Tem sido isso diariamente na vida dos professores de escola pública. Então realizar um trabalho de qualidade fica difícil porque as condições muitas vezes são precárias, não tendo recursos por parte do governo ou até mesmo pela direção não tão direcionada ao verdadeiro desejo de ensinar como deveria ser”>

Como é bastante determinada, Casassola diz que nunca se preocupou com a opinião dos outros, principalmente em relação aos meus estudos, e pelo fato de optar pelo magistério.

Quer ser uma professora para “fazer a diferença, estudando com bastante determinação e inovando sempre”.

Disse ainda que sempre teve “ótimos professores que me desafiaram a pensar diferente mas sempre tive muita convicção com tudo aquilo que minha família me passa. Então tudo para mim é aproveitável quando se trata de aprender”.

Finaliza participação dizendo que os governantes e a sociedade “deveriam rever as leis, os salários e dar mais oportunidades de capacitação na formação dos mesmos”.

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Encerrando nossa matéria, registramos breve avaliação da professora Sandra dos Santos, que há anos vem acompanhando a formação de jovens professores, numa escola da rede estadual de Passo Fundo.

“Meu nome é Sandra dos Santos, trabalhei por 14 anos na EENAV como professora de didática geral e algumas disciplinas específicas no antigo magistério. Na conjuntura atual, vejo menos jovens motivados a seguir essa profissão. Muitos iniciam o curso e, quando percebem a realidade dos seus professores fazendo greve, por exemplo, e devido a todos os motivos que conhecemos, muitos acabam abandonando o Curso. Já fazem alguns anos que saí do curso, mas vejo que cada vez tem menos jovens buscando essa formação. Prova disso é que Curso Normal fechou turmas da noite e sempre tínhamos de 2 a 3 turmas iniciantes do primeiro ano e agora a escola só tem uma. Os que procuram, são estudantes de cidades menores, perto de Passo Fundo, e que realmente tem aquele dom especial para assumir a profissão, que seria por amor e vocação”.


Por fim, cabe-nos lembrar que a esperança se chama JUVENTUDE. Apesar da realidade apontar menor interesse dos jovens na profissão docente, aqueles e aquelas que fazem a escolha pelo magistério hoje estão mais conscientes e mais vocacionados para a missão de educar e mais críticos com relação às mudanças que a sociedade precisa fazer para mudar a educação, a começar pela formação, apoio e valorização profissional dos professores e professoras.

Quanto a nós, professores e professoras, devemos estar atentos para incentivar e estimular os jovens que demonstram interesse na nossa profissão. Devemos encorajá-los, para que no futuro próximo, sejam ainda melhores do que a gente. As gerações futuras tem o dever de ser melhores do que a geração atual.

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