Aprender, escutar e dialogar?

Postado por: Leandro de Mello

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Reverbera, entre nós pelo primeiro rabisco, a questão: E, por que não escutar a juventude? E, a partir desta, outras inquietações afloram a reflexão. Quem são estes jovens? Vocês? Outros(as)? Como conectar-se? Quando há expressão juvenil? E quanto ao lar? Há?

É importante salientar que não se começa um caminho, sem antes tomar a decisão de peregrinar, de modo que o percurso seja, apesar de algumas agruras e incertezas, aprazível e instigador à busca do objetivo. No processo em construção, para fazer a opção pedagógica de assessorar e escutar jovens, muitas vezes, discutir ideias será um segundo passo, uma vez que mais importante tornar-se-á, antes sim, partilhar a vida. Dialogar é prioridade no caminho pastoral que se almeja construir. A acolhida, muitas vezes, se dá pelo diálogo do encontro. Uma primeira conexão. Que espaços são propícios para tal experiência? Existem? Onde?

A história pastoral com a juventude constrói-se pela ação e articulação de inúmeras pessoas ligadas à Igreja Católica no Brasil e em todo continente latino-americano. A saber, a ação pastoral com a juventude no Rio Grande do Sul e na Arquidiocese de Passo Fundo, por exemplo, é referencial histórico para o trabalho cristão em diversas comunidades, setores e grupos sociais. É salutar, todavia, dizer que toda a ação evangelizadora envolvendo a práxis pastoral da Igreja Católica, neste contexto contemporâneo, tem fontes importantes que lhe servem de suporte, como a Ação Católica Especializada (ACE), por exemplo, e os processos histórico metodológicos das décadas seguintes.

A experiência de ação pastoral com jovens não nasceu de cesárea, seu parto aconteceu à luz da articulação, da organização e do protagonismo juvenil gestado pelo viés da Igreja Católica local, regional, nacional e latino-americana. Se tomarmos por referência o desenvolvimento das atividades sócio eclesiais locais, por exemplo, poder-se-á certificar-se de que a presença ativa, em Passo Fundo, de lideranças jovens, rurais e urbanas, organizadas e articuladas, possibilitou-lhes a participação nas assembleias diocesanas de pastoral.

No início da década de 1980, a saber, os anseios e intuições apresentados fomentaram a construção de um programa específico para jovens. Conforme o plano de pastoral diocesano (1981-1983), constituíram-se alicerces de uma nova caminhada da Igreja Católica em Passo Fundo junto aos jovens. A voz da juventude fora escutada e redigida através do objetivo, que diz: “Evangelizar os jovens no meio específico para que ali assumam o seu papel, sendo agentes de transformação”. Na descrição das atividades propostas sugere-se organizar uma equipe diocesana de jovens que coordene esta ação pastoral. É caminho permanente, em construção, desde outrora à atualidade, 2020. Aprender escutar, com amor, para melhor cuidar, assessorar, aprender e dialogar. E, agora?

O oxigênio contemporâneo da ação pastoral junto aos jovens, no construto do caminho, é a experiência de auscultar jovens e adultos em diálogo sócio eclesial e pastoral, compreendendo a metodologia utilizada e propondo uma reflexão geradora de transformação social e eclesial. É processo em construção, desconstrução e reconstrução pela alteridade entre sujeitos. O Papa Francisco na exortação apostólica Evangelii Gaudium diz que a evangelização implica “um caminho de diálogo” (EG, n. 238).

Pela comunicação, seja ela hoje, presencial ou digital, a equipe constituída, peregrinando pelas comunidades, setores e serviços, dialoga com grupos de jovens. A organização e articulação arquidiocesana, assim, flui unida à coordenação regional e à coordenação nacional. Para tanto é indispensável conhecer os(as) interlocutores(as), certo? Os acessos remotos, a tecnologia, os meios de comunicação, as inúmeras ferramentas contemporâneas, neste ínterim, corroboram à ação proposta, mas não só. “A juventude, fase do desenvolvimento da personalidade, está marcada por sonhos que vão tomando corpo, por relações que adquirem cada vez mais consistência e equilíbrio, por tentativas e experimentações, por escolhas que constroem gradualmente um projeto de vida” (ChV, n.137). Projeto de vida?

Para conhecer e permitir-se ser conhecido(a) é essencial criar laços, encontrar-se, importar-se com a outra pessoa, saber o endereço e não apenas um número telefônico, quiçá o link da rede social; é mais! A juventude, os(as) jovens, caracterizados(as) pela faixa etária (14 a 29 anos – talvez você, não é?), são humanos em construção social, eclesial, política, econômica, cultural, sujeitos à processos dinâmicos em suas potencialidades sócio histórico transformadoras, muitas vezes simbólicas ao imaginário social e que, compondo a estrutura social, pela coletividade de sujeitos, organizados em grupo ou não, assemelhados pelo status etário, compõem significativa parcela da população com seus marcadores sociais, étnicos, de gênero e sexualidade.

A Igreja Católica dispondo-se como lar, animada por Francisco que aponta-a como casa aberta (EG, n. 47), pode ser espaço dialogal de encontro. Por que não? Há outros, certamente. Sugestões? Conhecer sujeitos é passo fundamental à intenção de ser casa aberta, lar que gesta vida, na liberdade fiel. Enquanto humano, cidadão, cristão, católico e padre, dialogar desejo. Topa?

 

Padre Leandro de Mello - @padreleojuventude

Passo Fundo, 21 07 2020

 

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