“Abre tua mão para o teu irmão” (Dt 15,11)

Postado por: Dom Rodolfo Luís Weber

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A leitura da Bíblia abre um horizonte sem fronteiras pelas possibilidades de interpretação, pela amplitude de temas e por conduzir ao mistério da revelação de Deus. O leitor que se aproxima da Bíblia também tem uma tarefa infinita: o texto bíblico exerce uma grande atração, é preciso se esforçar para entender os textos e no seu contexto, além de uma hermenêutica para interpretá-la corretamente. O leitor precisa se aproximar do texto como discípulo que quer aprender e precisa ser orientado. Não pode impor ao texto que lê a sua compreensão, mas deixar-se surpreender pela novidade da Palavra de Deus. Cipriano (200+258) dizia: Se, na oração, falamos com Deus, na leitura Deus fala conosco”. João Damasceno (675+750) ensinava: “Batamos à porta desse belíssimo jardim das Escrituras”.

Este ano, a Igreja no Brasil comemora o Mês da Bíblia, em sintonia com a Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-Catequética da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), fundamentando-se no livro do Deuteronômio, com o lema “Abre tua mão para o teu irmão” (Deuteronômio 15,11). Diante da amplidão da Bíblia, a Igreja convida para centrarmos a atenção no livro do Deuteronômio. Um livro que requer do leitor uma grande abertura de espírito e um esforço para compreender os seus ensinamentos. Não é possível fazer uma leitura apressada e superficial que poderia levar a conclusões distantes da finalidade do livro.

O livro do Deuteronômio faz parte do conjunto dos cinco livros chamados de Pentateuco, também conhecidos como Torá ou Lei Sagrada. Na língua grega Pentateuco significa “segunda lei” referindo-se a Moisés que a apresenta ao término da travessia do deserto. A primeira Lei foi dada no monte Sinai e agora que está iniciando uma nova vida para o povo, Moisés retoma a Lei e a atualiza diante dos novos acontecimentos. O livro começa assim: “Estas são as palavras que Moisés falou a todo Israel”.

O capítulo 6 apresenta a preocupação central do livro e que é a base da fé e da espiritualidade do povo. Vivendo a partir destes ensinamentos o povo viverá em paz, na fraternidade, na justiça e na segurança. Deixemos o próprio texto bíblico falar: “Estes são os mandamentos, os preceitos e as normas que o Senhor vosso Deus, ordenou que eu vos ensinasse (...) Assim temerás o Senhor, teu Deus, guardando todos os preceitos, tu, teu filho e o filho de teu filho, todos os dias de tua vida, a fim de que se prolonguem os teus dias. (...) Escuta, Israel! O Senhor é nosso Deus (...) Amarás o Senhor, teu Deus de todo coração (...) estejam no teu coração estas palavras(...) Tu as repetirás a teus filhos, delas falarás quando estiveres sentado em tua casa ou andando a caminho, quando te deitares ou te levantares. (...) Faze o que é reto e bom aos olhos do Senhor, para que te suceda bem e entres na posse da boa terra”.

O Deuteronômio também era destinado aos reis. “Ao assentar-se no trono do seu reino, mandará transcrever para si, num rolo, da parte dos levitas, uma cópia desta lei. Ele a terá consigo e a lerá todos os dias de sua vida, para que aprenda a temer ao Senhor, seu Deus, a guardar todas as palavras desta lei e a praticar todos estes preceitos” (17,18-19).

Portanto é um livro rico em reflexões morais e éticas que regulamentam as relações com Deus e com o próximo. Há um conjunto de leis humanitárias de promoção da justiça social, de inclusão e de solidariedade. O capítulo 15, donde é extraído o lema do Mês da Bíblia, ensina sobre o ano sabático que objetivava restabelecer a igualdade que se perdia com o passar dos anos. Ensinando que Deus deu a terra boa como um dom para todos, onde não pode haver nem indigência, nem avareza, mas igualdade e solidariedade.

São úteis as palavras do exegeta Pelletier: “O ganho de uma leitura da Bíblia passa assim a ser proporcional àquilo que o leitor consente expor de si próprio, aos riscos que ele aceita correr tornando-se vulnerável no confronto com as palavras com as quais ele se vai cruzar”.

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