RABISCOS SEMANAIS: Caminhar juntos(as)!

Postado por: Leandro de Mello

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“Como a aurora precursora do farol da divindade [...]” canta-se desde 1º de março de 1845, ano do Poncho Verde. A paz foi assinada! Lenços entrelaçados à cruz! A bandeira hasteada com três cores (verde, amarelo e vermelho) a tremular, para lembrar que o sangue, via cordão umbilical, nasce em veias sagradas e dignas, mas por 10 anos fervilhou como centelhas, nas frestas quentes da terra sul rio-grandense. A história é real, não se pode negar, muito menos esquecer ou camuflar. O jovem moço Jesus, fora outra vez crucificado, no corpo de centenas de milhares, “nesta ímpia e injusta guerra!”

A Farroupilha acabou e, agora também, a invernia. Que fazer? Levantar-se! Christus Vivit – Cristo Vive. “Ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram” (1Cor 15, 20), é razão de esperança e vigor, ante fracassos. A força vivificante do Cristo ressurreto convida à cultivar uma vida eucarística sinodal, assumindo a missão apostólica em prol da vida, para que o testemunho permita cantar “pão em todas as mesas, da páscoa a nova certeza. A festa haverá e o povo a cantar, aleluia!” Superar a morte, levantar-se, nutrir e viver!

Convido-vos à caminhar juntos(as), com a força de Jesus Cristo crucificado ressuscitado. Hoje, “há tantas situações onde reina a apatia e o indivíduo se perde num abismo de angústias e remorsos. Inúmeros jovens choram, sem que ninguém ouça o grito da sua alma. Muitas vezes, ao seu redor, o que há são olhares distraídos, indiferentes talvez mesmo de quem esteja a gozar os seus momentos felizes mantendo-se à larga. Há quem deixe correr os dias na superficialidade, considerando-se vivo quando dentro, na realidade, está morto (cf. Ap 3, 1). É possível encontrar-se aos vinte anos a arrastar uma vida decadente, não à altura da própria dignidade” (Papa Francisco).

Que atitude assumir? O evangelho permite vislumbrar a pedagogia de Jesus, à iluminar nossa prática, no compromisso de promover vida, revelando que para servir o próximo é indispensável fazer-se próximo, estar junto, solidarizar-se, ter compaixão (Lc 7,11-17). Amada(o) jovem, “se perdeste o vigor interior, os sonhos, o entusiasmo, a esperança e a generosidade, Jesus se apresenta diante de ti como se apresentou ante o filho da viúva que havia morrido e com todo seu poder de Ressuscitado, o Senhor te exorta: Jovem, eu te digo, levanta-te” (ChV, n. 20).

Chegando à porta da cidade, Jesus defrontou-se com um cortejo fúnebre. São realidades opostas. Jesus, acompanhado pelo povo que o segue, traz palavras de vida. Mas a frente, uma multidão triste, o cortejo fúnebre solidário à viúva. É uma dor de morte, como a dor do pós-guerra, como a inquietação frente a pandemia, neste 2020, um marasmo no caminhar como sentiram os discípulos de Emaús (Lc 24,14.21.24). A solidariedade, nestas horas de amargura e obscuridade, é de extrema importância. É princípio social e virtude moral, à Doutrina Social da Igreja Católica, a solidariedade (EG, 58).

A viúva de outrora, em Naim, é o retrato vivo da angústia de morte contemporânea. Tal angústia expressa uma dor inexplicável. Ao vê-la, Jesus “teve compaixão dela e lhe disse: Não chore!” (Lc 7,13). Jesus vê a dor. Seu olhar não limita-se ao enxergar, mas, antes expressa, sim, o perceber que ganha o sentido de encontro existencial. A Palavra de consolo traduz-se em não temas, estou contigo, eu te sustento. Empatia, compreende? “Queridos jovens, não deixeis que vos roubem esta sensibilidade” (Papa Francisco).

Aproximando-se do cadáver, tocando o caixão, Jesus diz: “Jovem, eu lhe ordeno, levante-se” (Lc 7,14). Fala com autoridade e convicção. Sua palavra tem força para fazer o jovem reanimar os sentidos vitais, pois, é uma palavra viva e eficaz, com poder de curar, libertar e vivificar. Seu gesto de acolhida, de serviço solidário, de cuidado, revela uma atitude de amor despretensioso que não assume uma prerrogativa moralizante, mas sim, terna. “A eficácia deste gesto de Jesus é incalculável: lembra-nos que um sinal de proximidade, mesmo simples mas concreto, pode suscitar forças de ressurreição” (Papa Francisco).

Hoje, nós, seguidores(as) de Jesus, somos convocados(as) ao testemunho de Cristo, evangelizando com palavras e gestos que permitam às pessoas levantar-se, ou ainda, deixar a situação de morte, uma situação de menos vida, para alcançar uma condição de mais vida, uma situação digna. Assim também fizeram apóstolos(as) em suas práticas pastorais, nas primeiras comunidades cristãs. “Não tenho ouro nem prata, mas o que tenho eu lhe dou: em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levante-se e comece a andar” (At 3,6). A primeira atitude é a coragem de levantar-se! Abandonar o caixão da inutilidade mórbida.

O levantar adquire, no ambiente presente, um caráter de libertação, isto é, não se limita ao simples gesto de pôr-se em pé, mas sim, dá a condição de erguer-se para a vida, livrar-se das amarras que oprimem. Jesus, ao dirigir-se ao jovem, lhe ordenando que se levante, apresenta-lhe uma proposta geradora de vida nova, primaveril. “Se Jesus tivesse sido alguém preocupado apenas com as suas coisas, o filho da viúva não teria ressuscitado” (Papa Francisco). Mais! Quando em pé, a primeira atitude daquele jovem, tocado pelo Cristo, foi falar (Lc 7,15). Exorta-nos, hoje, à agir, expressar-se, gritar, fazer-se escutar!

Devolver a dignidade de viver é chamada à levantar-se e ressurgir, viver e fazer acontecer a vida. “Mostremos valor, constância” na realidade atual. Amadas(os) jovens, sentinelas do presente na ação geradora de vida, vamos caminhar juntos(as) no compromisso primeiro de adquirir os costumes do ressuscitado, transformando a sociedade brasileira para que, à luz do evangelho “sirvam nossas façanhas de modelo à toda terra!” Por quê? “É primavera, te amo” e, como cantou, Tim Maia, “eu quero estar junto a ti”.

Padre Leandro de Mello - @padreleojuventude. Passo Fundo, 22 09 2020

 

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