Livro do Deuteronômio: abre a tua mão para o teu irmão (Dt 15,11)

Postado por: Ari Antônio dos Reis

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Em artigo postado na semana passada tratamos das linhas gerais do Livro do Deuteronômio, a saber a época e forma como foi escrito, bem como seu objetivo. É um livro que versa sobre a Lei de Deus, manifestada primeiramente através da liderança de Moisés e, posteriormente pelo texto em discussão, expresso no nome deutero-nomos ou segunda lei em grego ou debarim-dabar, palavras em hebraico.

A segunda lei deveria ser seguida fielmente pelo povo e as lideranças teriam a responsabilidade de fazer com que esta obediência acontecesse pelo bem do povo de Deus, como se pede. “Ouve ó Israel: Javé nosso Deus é o único Senhor. Portanto, amarás Javé Teu Deus como todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força. Que estas palavras que hoje te ordeno estejam em teu coração. Tu as inculcarás aos teus filhos e delas falarás sentado em tua casa e andando em teu caminho, deitado e de pé. Tu a atarás também à tua mão como um sinal, e serão como um frontal entre os teus olhos: tua escreverás nos umbrais da tua casa, e nas tuas portas” (Dt 6, 4-9).

A obediência e seguimento da Lei de Deus visavam preservar a liberdade e a vida de todos, portanto, com a necessidade de fomentar relações de fraternidade e partilha. A referência para este compromisso é Deus mesmo, pois Ele sempre agiu com misericórdia e justiça, colocando-se ao lado dos pobres.

Do texto do Deuteronômio extrai-se o lema do mês da Bíblia, a saber “abre a tua mão para o teu irmão” (Dt 15,11). Foi uma boa orientação naquela época e, certamente é nos tempos atuais, com o aumento de pessoas que vivem em situação de pobreza e o risco do  Brasil voltar ao “mapa da fome”.

 A frase que orienta a reflexão no mês da Bíblia faz parte de um texto mais amplo, o segundo discurso de Moisés que trata da lei (cf.Dt 4, 44-28,68). Dentro deste conjunto maior está o trecho, Dt 15, 1-18, que versa sobre o ano sabático, ou o ano da remissão, celebrado a cada sete anos. Também fala da anistia, da generosidade e compromisso com a partilha como meios de superação da pobreza. São expressões consistentes que dizem respeito às relações entre os membros do povo de Deus, com especial atenção aos pobres. Demonstra a preocupação com a pobreza e o desafio de saná-la com rapidez: “a verdade é que no seu meio não haverá nenhum pobre, porque Javé vai abençoá-lo na terra que Javé, o seu Deus, lhe dará por herança, para que você a possua” (Dt 15, 4).  

Por isso o apelo para que os “irmãos cuidem dos irmãos”, acentuando a fraternidade como um valor acima dos outros valores e a atenção especial aos mecanismos de superação da pobreza. “Quando houver um pobre em teu meio que seja um só de seus irmãos, numa só das tuas cidades, na terra que Javé teu Deus te dará, não endureças teu coração, nem fecharás a mão para com este teu irmão pobre; pelo contrário: abre-lhe a mão, emprestando o que lhe falta, na medida da sua necessidade (cf. Dt 15, 7-8)

Na Bíblia a pobreza tem rosto e se manifesta sobretudo na pessoa do órfão, da viúva e do estrangeiro que devem ser protegidos (cf. Ex 22, 22-23; Dt 10, 17-18; Is 10, 1-2). Diante desses está o compromisso real em promover a justiça e a solidariedade, para que o sofrimento causado pela pobreza não persista.  Salienta-se no projeto, o cuidado para que as relações entre o povo não sejam geradoras de pobreza, fator de desestruturação das famílias e da própria sociedade.

Um dos caminhos propostos para responder ao desafio da superação da pobreza era o ano sabático, quando todas as dívidas eram perdoadas e as terras, tomadas como pagamento de dívidas, devolvidas aos seus primeiros donos. Esta atitude ajudaria a superar a desigualdade econômica, geradora de pobreza e recolocaria o ser humano na centralidade das relações, a partir da consideração da igualdade.   Entretanto, a pobreza inevitável expressa na viúva, órfão, aleijado e estrangeiro também deveria ser cuidada pela sociedade como norma de fidelidade a Deus. Estender a mão implica não só na atenção passageira e fugaz, mas o real compromisso em transformar a situação daquela pessoa.

Em nossos dias compreendemos que a atitude de estender a mão é o primeiro passo de um processo que envolve o cuidado continuado em busca de condições para que a situação de pobreza e miséria seja superada. A Conferência de Puebla (1979) falava das feições dos pobres no continente latino americano (DP 31-39), denúncia que é reiterada na Conferência de Aparecida (2007) quando descreve os rostos dos novos pobres (cf. DAp 65) que necessitam atenção especial da Igreja, pois ali está o rosto do Cristo sofredor (cf. DAp 265).

Temos a oportunidade de estudarmos a Palavra de Deus. Ela permite a reflexão e a oração a partir do que Deus disse e está dizendo para a humanidade. Convida também a outro passo, a ação em nome do que Deus pede a nós. O texto do Deuteronômio lembra a necessidade de abrir a mão para o pobre (Dt 15,11).  No evangelho de Mateus Jesus se coloca na pessoa deste pobre e diz que a atenção a ele é critério de salvação (Mt 25, 31ss).

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