Professor (a): uma missão

Postado por: Ari Antônio dos Reis

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O calendário nacional assinala em 15 de outubro o dia dos professores. À missão de professor está ligada a outras atividades voltadas ao cuidado pessoal, intelectual e espiritual de outrem. É o mestre (magister do latim), aquele que guia, orienta ou dirige. É o educador (educatore na língua latina), o que cria, nutre ou dirige as pessoas. Pode ser também o pedagogo (do grego paidagogos) que conduz ou orienta a criança no caminho da descoberta do saber. É o formador (do latim formator), aquele que se dispõe a formar outra pessoa ou que transmite informações consideradas importantes para que ela possa conduzir sua vida na busca do conhecimento.  

Na perspectiva de ação educacional, formalmente estabelecida, é o professor, pessoa que faz a “profissão”, que se dedica, dá a conhecer, assegura. Tem como interlocutor alguém confiado a ele ou que confia nele e que depende das suas atitudes e orientações para seguir um caminho a ser traçado. Dedica-se a uma ou mais áreas de conhecimento e, a partir desta plataforma epistemológica, partilha saberes e experiências com públicos diferenciados.  Nesta articulação a tarefa do professor se confunde com a missão educacional, pois vai além da “entrega” de informações via textual ou oral. A educação exige convivência e essa transforma e é transformadora. Segundo Paulo Freire, ninguém educa sozinho pois a educação envolve trocas de saberes, mediadas pelo mundo. A missão do professor é um processo ascendente de troca de conhecimentos e vivências no qual ele é sujeito que enriquece e é enriquecido pelo diálogo com outros sujeitos.

Uma visita à história da humanidade mostrará que sempre foram necessários “orientadores”, sobretudo para crianças e adolescentes. Primeiramente a formação voltava-se para membros das classes abastadas e isto contribuía para o aumento do abismo social, visto que uma grande massa ficava alheia à formação básica e ao conhecimento das “letras”. A educação minimamente formal era reservada para os que tinham posses, assim como tem sido a formação superior nos últimos tempos.  Com o processo de universalização da educação básica, conquista para toda a humanidade, esta tarefa exigiu organização e, consequentemente, mais pessoas com índole e disposição para a missão educadora, pois todo o professor é um orientador dos seus pares no caminho do conhecimento.

A missão do professor agrega a técnica e a sabedoria. Técnica no sentido de estar munido de conhecimentos para transmitir ao grupo a ele confiado. Sabedoria para perceber que no contexto do seu trabalho estão pessoas com trajetórias variadas e diferentes experiências de vida, que implicarão no trabalho desenvolvido. O trabalho com pessoas sempre será único e as experiências não se repetem, o que exige sempre disposição para assimilar os processos que se renovam e dialogar com o público que nunca será o mesmo. Como dar conta de responder aos desafios dos alunos que anualmente são colocados na sua frente com expectativas diferenciadas em relação à educação? Ao mesmo tempo que ministra as aulas disputa a atenção com o que passa na cabeça deste público: afetos, vida financeira, relações sociais, preocupações familiares, traumas, disposição em aprender algo. Por vezes faz necessário dar um tempo no conteúdo para outras orientações também importantes: escutar, interagir com sentimentos, preocupações, decepções e alegrias, ler nas entrelinhas desta ou aquela atitude ou comportamento.  Aqui a sabedoria, nem sempre escrita ou elaborada em um livro didático, ocupa o lugar da técnica ou do conhecimento elaborado.

Esta carga de responsabilidade exige do professor algo mais do que o exercício profissional estático. Nestes tempos de pandemia muitos professores precisaram se reinventar tanto para estruturação pessoal como para colaborar com seus interlocutores, experimentando desafios de um processo educacional não presencial, onde todos os sentidos presentes na ação pelo encontro são mediados pela tela de um monitor de computador ou aparelho de televisão. Muitos não estavam habituados ao uso dos meios eletrônicos e precisaram em pouco tempo se apropriar desta ferramenta fazendo dela aliada no processo de ensino aprendizagem. Fez e continua fazendo falta o encontro face a face tão próprio nos processos educacionais.   

Este desafio veio em meio a outros já presentes na trajetória dos professores. Destaca-se a mudança cultural que sugere outras formas de ler o mundo provocando muitas tensões, pois os fundamentos da interpretação são abalados e muitas vezes o “dito tem valor de não dito” e o “não dito tem valor de dito” dependendo a referência. Não esqueçamos os desafios quanto à sobrevivência. Um professor do ensino fundamental e médio historicamente não tem recebido um salário razoável e compatível com a responsabilidade assumida. No Estado isto se agrava com o parcelamento dos salários. Implica na sobrevivência, colocar a comida na mesa e pagar os compromissos financeiros, na segurança estrutural de vida para continuar a missão educadora. Outro desafio diz respeito a existência do professor. Qual é o seu lugar neste mundo e qual é a configuração da sua missão. Este último desafio dialoga com a necessidade de reencantamento da missão educacional atitude que se revitaliza a cada dia, apesar dos revezes.

Felizmente temos professores. Dependemos dos professores e vamos continuar dependendo. Dependemos daquela que nos alfabetizou, que foi firme diante dos desvios, que teve paciência; ou do mestre que tirou um tempo para nos ouvir e encontrou palavras apropriadas para nos ajudar a ver o mundo de outra maneira. Compreendo o professor como um pastor ou pastora. As vezes claudicando, cansado ou sofrido, até sem o cajado, teimando em entrar em sala de aula a fim de conduzir o grupo pelos caminhos do conhecimento como o pastor busca as melhores pastagens para o seu grupo.   

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