RABISCOS SEMANAIS: À sombra da memória!

Postado por: Leandro de Mello

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Sombra e água fresca, gostas? Se a resposta for sim, permita-me outra pergunta: plantaste sementes e ou árvores para sombras solidárias à alteridade presente e futura? “O urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar” (LS, n. 13). A canção, talvez, inspire à ação: “Uma semente nativa fui buscar e os obstáculos que enfrentei não me impediram de continuar. Enquanto um milhão de milhas percorri e com todo carinho lhe entreguei a semente que então desabrochou” (Semente Nativa – Natiruts).

O DOCAT, ao tratar sobre o meio ambiente e a intenção de preservar a criação, propõe a questão: “Que contributo podem os cristãos dar para que o ambiente seja mais humano?” É importante refletir e agir para além de parâmetros morais à responsabilidade cristã. Neste 2020, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) motiva-nos à plantar sementes e ou árvores nativas em cada região brasileira, como sinal sensível e zeloso para conosco e com a Casa Comum. A inspiração nasce pelas provocações do Sumo Pontífice e por ocasião da celebração in memoriam de amigos e familiares, especialmente, vítimas da pandemia (160 mil vidas ceifadas).

Francisco, na Exortação Apostólica Laudato Si, expressa: “a humanidade possui ainda a capacidade de colaborar na construção de nossa casa comum [...]. Os jovens exigem de nós uma mudança; interrogam-nos como se pode pretender construir um futuro melhor, sem pensar na crise do meio ambiente e nos sofrimentos dos excluídos” (LS, n. 13). Mais! “Se a tendência atual se mantiver, este século poderá ser testemunha de mudanças climáticas inauditas e de uma destruição sem precedentes dos ecossistemas, com graves consequências para todos nós” (LS, n. 24).

Educar-se à solidariedade, à preservação, à sustentabilidade e à responsabilidade socioambiental integral é fundamental. Água boa e fresca, há? “A água potável e limpa constitui uma questão de primordial importância, porque é indispensável para a vida humana e para sustentar os ecossistemas terrestres e aquáticos” (LS, n. 28). A campanha “É tempo de Cuidar” desenvolvida ao longo deste ano apresenta inúmeras ações voltadas ao cuidado da vida humana e do meio ambiente. Plantar árvores, cuidar das fontes e memorar histórias de pessoas que já participam da eternidade é-nos um ritual antropológico e sagrado significativo, compreende? Põe-nos em fraternal comunhão, pois “ninguém amadurece nem alcança a sua plenitude, isolando-se” (FrT, n. 95).

 

Na Exortação Apostólico Querida Amazônia, por exemplo, Francisco convida os(as) jovens à amar e cuidar das raízes no intuito de fazer memória histórico cultural ancestral, “pois das raízes provém a força que (os) fará crescer, florescer e frutificar. Para aqueles que são batizados, incluem-se nessas raízes a história do povo de Israel e da Igreja até ao dia de hoje. Conhecê-las é uma fonte de alegria e, sobretudo, de esperança que inspira ações válidas e corajosas” (QA, n. 33). À sombra da memória, cuidar da saudade de pessoas próximas e do planeta é atitude ímpar e louvável. “É a partir das nossas raízes que nos sentamos à mesa comum, lugar de diálogo e de esperanças compartilhadas” (QA, n. 37).

O cultivo de uma pequena e singela semente ou mesmo árvore nativa, in memoriam, desperta-nos ao diálogo geracional. Quanta beleza e sensibilidade humano ambiental há no encontrar-se para plantar e, ademais, escutar histórias reais. Quiçá, uma atualização do mistério pascal à luz das narrativas amistosas e familiares. Alteridade humano histórica e socioambiental, sabe? Francisco manifesta júbilo ao dizer: “Alegra-me ver aqueles que perderam o contato com as suas raízes tentarem recuperar a memória danificada [...]. As várias expressões artísticas, particularmente a poesia, deixaram-se inspirar pela água, a floresta, a vida que se agita, bem como pela diversidade cultural e os desafios ecológicos e sociais” (QA, n. 35).

Exorto-vos, à sombra de nossas culturas e sementes cultivadas, refrescar-se em diálogo e alteridade integral, fonte humana e ambiental. “Convido à esperança que nos fala duma realidade que está enraizada no mais fundo do ser humano, independentemente das circunstâncias concretas e dos condicionamentos históricos em que vive [...]. Caminhemos na esperança!” (FrT, n. 55). Tenhamos coragem à caridade, à fraternidade e à amizade social e familiar. “Renunciemos à mesquinhez e ao ressentimento de particularismos estéreis, de contraposições sem fim. Deixemos de ocultar a dor das perdas e assumamos os nossos delitos, desmazelos e mentiras. A reconciliação reparadora ressuscitar-nos-á, fazendo perder o medo a nós mesmos e aos outros” (FrT, n. 78). Boas plantações e conversações!

 

Padre Leandro de Mello - @padreleojuventude. Passo Fundo, 03 11 2020.

 

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