Santidade: um projeto de vida

Postado por: Ari Antônio dos Reis

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No final de semana passado celebramos a memória de todos os Santos e Santas, celebração considerada solenidade devido sua importância para a Igreja.  O prefácio número 1 da Oração Eucarística sobre os Santos, proposta para a celebração, diz: “nos vossos Santos e Santas ofereceis um exemplo para a nossa vida, a comunhão que nos une, a intercessão que nos ajuda”. São três grandes “ofertas” de Deus para guiar a nossa vida de cristãos a caminho da santidade: o exemplo, a comunhão e a intercessão.

Temos ainda outras três referências. A primeira é Deus, que nos convida a um caminho de santidade a partir da paternidade amorosa. Recebemos um grande presente de amor, sermos chamados filhos e filhas de Deus (cf. 1 Jo 3,1). Somos chamados à comunhão, à intimidade com o Pai.  A segunda referência são os Santos. Eles nos precederam na eternidade porque tiveram uma vida reconhecida pela Igreja como “santa”. São os cento e quarenta e quatro mil de todos as tribos e povos que estão diante do trono de Deus (cf. Ap 7,4). Eles apontam o caminho da salvação pelo testemunho dado em fidelidade ao Reino. A terceira referência está em nosso meio. Olhando ao redor vemos tantos santos e santas dando um testemunho significativo no nosso dia a dia. São os bem-aventurados de nossos dias de quem fala o Evangelho (Mt 5, 1-12), porque buscam colocar suas vidas em sintonia com o Reino anunciado por Jesus. Estes testemunhos são alentos para a vida cristã e trazem o sentido da santidade para o nosso cotidiano.

Sobre esta terceira referência acolhemos o que diz o Papa Francisco: “gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir. Nesta constância de continuar a caminhar dia após dia, vejo a santidade da Igreja militante. Esta é muitas vezes a santidade ao pé da porta, daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus, ou – por outras palavras da classe média da santidade. Deixemo-nos estimular pelos sinais de santidade presentes nestas pessoas.  Deixemo-nos estimular pelos sinais de santidade que o Senhor nos apresenta através dos membros mais humildes deste povo que «participam também da função profética de cristo” (GE 6).

Somos tentados a pensar que o caminho da santidade é difícil e complexo. É caminho de todo o batizado na graça de Deus e força do Espírito Santo. A condição que assumimos no batismo, quando fomos mergulhados na proposta de Jesus, abre o caminho da santidade. As experiências vividas a partir da condição de vida familiar, comunitária ou profissional, sugerem uma vida santa. Segundo o Papa Francisco: “para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade esteja reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais” (GE 14). A santidade também está no exercício político voltado para o bem maior; no exercício da caridade como caminho de libertação dos pobres; na ação social em vista de uma sociedade mais justa e solidária; no compromisso de servir a comunidade nas suas diferentes necessidades a partir do compromisso evangélico, agir com espírito profético diante das injustiças sociais que maltratam tantas vidas.

Na semana da celebração de todos os Santos e Santos somos agraciados com a memória facultativa de São Martinho de Lima (03 de novembro), um santo latino americano negro do século XVII. Era filho de um fidalgo espanhol e mãe afro-americana. Não foi reconhecido pelo seu pai, como tantos filhos e filhas do tempo da escravidão. Também teve dificuldades em ser aceito na congregação por causa da sua origem. Depois de tornar-se religioso continuou fazendo de sua vida um serviço aos irmãos usando a fé, a oração e o conhecimento das ervas medicinais para curar as pessoas, sobretudo os mais pobres e necessitados. Costumava dizer “ eu medico, mas Deus cura”. 

Que este testemunho marcado pela simplicidade e espírito de serviço nos inspire à bem-aventurança de uma vida de serviço à causa do Reino, uma vida a caminho da santidade.

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