RABISCOS SEMANAIS: Balançar da vida!

Postado por: Leandro de Mello

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Brincar de balanço é, certamente, algo peculiar à infância ou mesmo à adolescência, juventude e, por que não, à vida adulta, certo? Revisitar memórias infanto-juvenis permite-nos degustar prazeres saudáveis à convivência familiar, amistosa e societária, uma vez que edifica-nos enquanto seres humanos e partícipes da vida planetária, a natureza, berço vital e de mútua alteridade.

À essência do existir lúdico de um balanço pode, em primeiro momento, parecer supérflua à construção cidadã integral da pessoa. Afinal, que importância significante traz o ato de brincar ao balançar-se? Equilibrar-se para bem viver, talvez! Ter equilíbrio físico, psíquico, afetivo e espiritual constitui-nos à plena realização, compreende? Refletir a vida, a partir da experiência lúdica do balanço, reporta-nos pensar que “o entardecer da vida humana é tão cheio de significação quanto o período da manhã” (Carl Gustav Jung. Espiritualidade e Transcendência, 2015, p.51). Faz-se importante bem articular, ambas as etapas, entre o ir e vir do existir. 

A vida é cíclica no construto de relações, aprendizagens, projetos e sonhos a nos embalar. Para construir um simples balanço, por exemplo, são necessários instrumentos, tais como: corda, um pedaço de madeira que permita apoiar-se, sentar-se e um local para sustentá-lo. Muitas vezes, uma bela e amistosa árvore, cumpre perfeitamente tal ofício. Quantas árvores guardam, carinhosamente em seus simples ou frondosos galhos, ninhos de pássaros, flores, frutos, não? E balanços? Plantaste árvores à vida lúdica e responsável, na caminhada cidadã e cristã?

A tradição cristã e a escritura sagrada ajudam refletir desde o Gênesis a presença ímpar das árvores no existir humano e societário e a relação com o transcendente. No jardim do Éden, a saber, havia a árvore da vida e junto dela a árvore do conhecimento (Gn 2, 9). A responsabilidade humana, na relação com a criação, a Casa Comum, é o cuidado e a sustentabilidade à vida. Elias, o profeta, repousava à sombra de um Junípero, quando escutou em seu coração: “Levante-se e coma, porque o caminho que você tem a percorrer é longo demais” (1 Rs 19, 7). Zaqueu, desejando ver e encontrar-se com Jesus, descobriu-se sobre os galhos de uma árvore, quando recebera o convite: “Zaqueu, desça rápido, porque devo ficar em sua casa” (Lc 19, 7).

Há milhares de árvores natalinas espalhadas em lares, ruas e praças, neste período entre o natal e o ano vindouro. Em contra balanço, na atualidade, centenas de milhares arbóreas foram consumidas por chamas e motosserras, não é verdade? É prudente perguntar: “que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão crescendo?” (LS, n.160). Nossos(as) jovens têm locais adequados para fixar balanços à digna vida?  Pessoas adultas dispõem-se à balanços de vida sustentáveis?

Papa Francisco, reporta-se ao mundo, ao escrever sobre a cultura do cuidado como percurso de paz, através do 54º Dia Mundial da Paz celebrado no primeiro dia do ano novo. Francisco recorda que “a promoção da cultura do cuidado requer um processo educativo, e a bússola dos princípios sociais constitui, para o efeito, um instrumento fiável para vários contextos relacionados entre si”. No compreender o Sumo Pontífice, bem como da Doutrina Social da Igreja, “a educação para o cuidado nasce na família, núcleo natural e fundamental da sociedade, onde se aprende a viver em relação e respeito mútuo”. Que condições dispõem, hoje, as famílias para desempenhar tão nobre missão? Vale lembrar que, para além dos núcleos familiares, em suas diversas características, há outros sujeitos encarregados neste processo humano em construção, presentes na sociedade, seja via escola, grupos, entidades, instituições, etc. Ora, no balançar da existência, entre retrocessos e avanços, há inúmeras mãos envolvidas. “A educação constitui um dos pilares de sociedades mais justas e solidárias” (Papa Francisco).   

Portanto, “se caminharmos juntos, jovens e anciãos, poderemos estar bem enraizados no presente e, a partir daqui, frequentar o passado e o futuro: frequentar o passado para aprender com a história e curar as feridas que, às vezes, nos condicionam; frequentar o futuro, para alimentar o entusiasmo, fazer germinar sonhos, suscitar profecias, fazer florescer esperanças” (ChV, n. 199). Juntos(as) e unidos(as), aprendemos mutuamente a cuidar da natureza, da pessoa humana, a plantar árvores e construir, responsavelmente, mecanismos capazes de nos embalar à Civilização do Amor, sem esquecer a pureza lúdica a nos acolher nos jardins do mundo (Mt 18, 3).

 

Padre Leandro de Mello - @padreleojuventude. Passo Fundo, 29 12 2020.

 

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