Desafios para 2021

Postado por: Ari Antônio dos Reis

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Estamos dando os primeiros passos neste novo ano. Queremos iniciar com fé, esperança e a disponibilidade de superarmos os desafios que estão no horizonte.  São muitos. Recordo aqui alguns que exigirão a mobilização da sociedade porque, como afirma o papa Francisco (LS 16) tudo está interligado. Precisamos superar o equívoco de pensar que os problemas que não estão diretamente relacionados conosco e não afetam nossa vida não nos dizem respeito.

 Inauguramos este novo ano com a expectativa da aplicação, em larga escala, da vacina para nos defender contra a Covid 19. Em termos de saúde pública é a grande expectativa da população em nível mundial e nacional. Certamente, sem desconhecer a necessidade da proteção individual, estamos cientes que a vacina dará ânimo para que continuemos caminhando. A imunização que irá se disseminando será uma ferramenta importante que permitirá a retomada das atividades nos diferentes setores da sociedade.  A situação da pandemia é preocupação primeira em termos de saúde pública. Contudo, não esqueçamos os déficits quanto à qualidade e à equidade na oferta à saúde pública já largamente denunciados antes da vigência da pandemia. Certamente, a precariedade da oferta tanto de insumos, quanto de atendimento tem se agravado. Antes da pandemia tínhamos grande insuficiência no atendimento à saúde no tocante às especialidades estendendo-se também à internação hospitalar, quando necessária. O atendimento ambulatorial é necessário e se constitui como primeiro passo do movimento em direção a uma área especializada e aos procedimentos necessários para a recuperação da saúde.  Muitas vezes, o cidadão-usuário dos serviços de saúde permanece longo tempo à espera da continuidade do tratamento e não poucas vezes, isto implica em sequela graves quando não a perda da vida.

No que diz respeito à situação econômica vivenciamos sua estagnação com comprometimento de vários setores, resultando em alta taxa de desemprego (14,6 % no último trimestre de 2020, segundo o IBGE). O dado é preocupante porque o emprego formal é a melhor forma de inserção social. Não são perceptíveis as melhoras quanto ao nível de empregabilidade, o que dissemina o crescimento das ocupações informais e sem o amparo de uma proteção social, alternativas ao caminho traçado pelo sistema. Neste contexto as pessoas precisam sobreviver e uma renda, por menor que seja, já é alguma coisa.

Ligado ao tema anterior se vislumbra o desafio do aumento da pobreza e da miséria no Brasil, como consequência da retração da economia e da consequente queda do nível de emprego. O auxílio emergencial articulado durante a pandemia no ano passado foi um alento, contudo um paliativo face à estrutura injusta e desigual do Brasil. Lembremos que o auxílio emergencial só foi viabilizado pela pressão social. Não esqueçamos que para o fortalecimento da   estrutura social injusta e desigual, colabora  a insensibilidade governamental para a questão social, o que tem impedido a construção de sistemas de proteção sob a responsabilidade do Estado. Na esfera federal foi eleito um grupo defensor do conservadorismo dos costumes e voltado ao ideário neoliberal quanto à economia. Mesmo durante a pandemia esta tônica tem continuado impactando as condições de sobrevivência da população, especialmente a mais empobrecida.

Outro desafio está na superação de um estado de belicismo social, aflorado nos últimos anos e que impede possíveis canais de diálogo com quem pensa diferente. Este belicismo foi provocado e ganhou, nas diferentes redes sociais, um canal de disseminação. Perdeu-se o pudor em ser violento, racista, machista e preconceituoso. Fere-se dignidade e atenta-se inclusive contra a vida das pessoas. As pessoas se dão ao direito de agredir e agir com violência pelo fato de não concordarem com o pensamento e o agir do outro. Chegamos ao extremo de nas eleições de 2018 elegermos várias pessoas que se firmaram com este discurso. Felizmente as eleições municipais de 2020 arrefeceram estas posturas.  

Ainda como desafio não podemos deixar de mencionar a pauta religiosa e esta diz respeito às várias denominações. Em tempos de pandemia assistimos muitas lideranças promovendo uma real contribuição para consolo das pessoas e acompanhamos outras iniciativas de auxílio e proteção à vida. Mas, infelizmente vimos muita desinformação sendo espalhada e muitas mentiras veiculadas nas televisões, rádios e redes sociais. Realmente foi um grande desserviço à população marcado pela irresponsabilidade e uma leitura reducionista da fé. Há de se afirmar que muitas lideranças religiosas não assumiram o compromisso com o bem comum.

Os desafios existem e podem ser superados. Os cristãos ao longo da história têm enfrentado vários desafios. A fé no ressuscitado, aquele que derrotou a morte, considerada uma barreira instransponível, sustenta o caminhar e o enfrentamento dos desafios. Temos a certeza da sua presença atuante junto a todos que testemunham o Reino. Ele deu esta certeza quando enviou o grupo dos discípulos à missão afirmando: “eis que estarei convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt, 28,20).

 Junto aos desafios temos são muitos sinais alentadores espalhados no meio do povo. As atitudes de solidariedade têm aumentado aliviando a dor e o sofrimento de muita gente. Embora não sejam divulgadas, estão semeando os princípios evangélicos (Mt 6, 3-4). O bem acontece e o óleo da misericórdia vai curando as feridas dos sofredores. Em um país onde a maioria da população é negra e está mergulhada na miséria e pobreza tem se tematizado o “racismo estrutural” e a partir daí denunciados os tantos casos de racismo espalhados na sociedade. A coragem de denunciar desnuda uma ferida escondida na sociedade brasileira. É preciso revelá-la e buscar a cura, mesmo que demore tempo. A denúncia dos tantos casos de racismo e discriminação é a profecia necessária em nossos dias. Ajudará a salvar muitas vidas.

Por fim, percebemos a desconstrução das falácias eleitoreiras de 2018. A dinâmica da realidade brasileira tem feito este trabalho. Infelizmente ao custo de muito sofrimento. Poderia ser evitado, mas não o foi. Que possamos amadurecer a partir desta amarga experiência.

Certamente temos outros sinais de esperança. Descubra você, caro leitor, estes sinais que são o combustível que lhe levará a andar neste novo ano. Somado a ele nos alimentemos dos afetos, das amizades, da solidariedade e da fé que nos faz caminhar porque caminhar é preciso e temos um Deus que caminha conosco respeitando nossos processos sem nos abandonar.

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