O agir político durante a pandemia

Postado por: Ari Antônio dos Reis

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Nesta semana recebemos com alívio a notícia da aprovação de algumas vacinas que contribuirão na imunização da população brasileira contra o Covid 19. Com maior ou menor interesse, tomamos conhecimento do trabalho da Agência de Vigilância Sanitária – Anvisa, que tem a responsabilidade de verificar se todos os protocolos científicos foram seguidos, a fim de evitar riscos para os brasileiros. Assim, a afirmativa do presidente da república de que “viraríamos jacarés” se fossemos vacinados flerta com a ignorância ou com a má fé. Os medicamentos e vacinas a serem utilizados em larga escala no tratamento ou prevenção de enfermidades seguem um rígido processo de testes antes de serem postos à disposição dos usuários. Temos uma boa notícia. O processo de vacinação começou e esperamos que a imunização se massifique o quanto antes. Poderia ser mais rápida se houvesse organização governamental para isso. Entretanto esperou-se muito. Vidas ameaçadas não podem esperar.

Por outro lado, acompanhamos com preocupação notícias sobre a situação da cidade de Manaus e demais cidades do interior do Estado do Amazonas, nas quais o sistema de saúde entrou em colapso pela falta de insumos, especialmente oxigênio, de fundamental importância nos casos de agravamento da doença. Realmente a situação está preocupante e gerou uma corrente de mobilizações na sociedade em vista do alívio do sofrimento daquelas pessoas.

Os dois fatos citados acima ajudam lembrar que deste seu o início, a pandemia não foi tratada como um problema de Estado, ou seja envolvendo as diversas instituições em vista do seu enfrentamento. A “gripezinha” era muito mais grave do que se imaginava e já passam de duzentas mil mortes, que poderiam ser evitadas. O que tem acontecido em Manaus e demais cidades é o coroamento da irresponsabilidade, sobretudo do governo federal, em articular-se para enfrentar a pandemia. Nem os exemplos vindos de outros países aliviaram a teimosia em desconhecer a gravidade do fenômeno. Recordamos os equívocos cometidos.

Primeiro, a pandemia, no quesito enfrentamento articulado mediado pelo Ministério da Saúde, não foi vista como fato relevante. Uma enfermidade que leva muitas pessoas aos hospitais e com alta taxa de mortalidade é um problema relevante.  Entretanto pesou a versão do presidente da república, e parte da sua equipe, de que era uma “gripezinha” que poderia ser tratada com remédios sem comprovação científica quanto à sua eficácia preventiva ou curativa. Junto a isso, disseminou-se a falsa informação de que era um vírus fabricado na China para destruir o resto do mundo. Infelizmente estas duas ideias encontraram muitos adeptos. Mesmo que a relevância do problema fosse a cada dia demonstrada pelas autoridades científicas mundiais/nacionais e com as mortes aumentando, os negacionistas não se convenceram. Pagamos o custo deste equívoco com muitas mortes e pessoas comprometidas em qualidade de vida para o resto dos seus dias, pelas as sequelas da doença. 

Segundo, se configurou uma disputa de versões e responsabilidades pelas iniciativas entre o governo federal, unidades federadas e sociedade civil. O critério de combater a pandemia, adotar medidas de proteção e salvar vidas ficou em segundo plano. Com o falso argumento de que a economia deveria ser protegida, como se o cuidado da vida e da economia fossem auto excludentes, gatou-se mais tempo em disputas de versões sobre a existência do mal e possíveis tratamentos do que na articulação do enfrentamento da pandemia. Tal foi o grau do acirramento que se criou em nível nacional um “gabinete de crise” entre governadores, prefeitos, membros do legislativo e sociedade civil em vista de um processo comum de trabalho que contasse com o envolvimento e responsabilidade de todos. O governo federal que deveria articular este diálogo não se comprometeu e optou por negar a gravidade do problema. Foi uma forma de agir político. Diante desse fato lembramos o alerta do Papa Francisco descrito na Carta Encíclica Fratelli Tutti: o desprezo pelos vulneráveis pode esconder-se em formas populistas que, demagogicamente, se servem deles para seus fins ou em formas liberais a serviços dos interesses econômicos dos poderosos (FT 155).

Ao mesmo tempo em que fomos surpreendidos por uma pandemia extremamente letal, também fomos envolvidos por ações totalmente irresponsáveis por parte do presidente da república. Sentimos falta um de Estadista, alguém que governa olhando além do seu grupo político e seus interesses. Sem um Estadista preocupado com o povo que governava ficamos à mercê dos desdobramentos do Covid 19. O estrago foi grande.

Estamos, aliviados, recebendo a vacina para a imunização física. Mas estamos em déficit da imunização cidadã contra governantes irresponsáveis. A superação só será possível através da formação política e compromisso com a democracia.  Compreendamos que o agir político não é direito de apenas alguns cidadãos. É direito de todos, porque pela política perpassam os projetos de uma sociedade. Quanto menos gente envolvida menor a chance de voltar-se ao bem comum. Não deixemos que tomem nosso direito de pensar e discutir o que é melhor para nós. Esta acomodação é muito perigosa. Sobretudo lembremos que o agir político é muito mais do que eventualmente gritar e bater panelas. É o agir permanente e dialogante com as forças sociais em vista de um bem maior, a partir do princípio da caridade. Será o grande remédio contra projetos que se fazem constante ameaça a nossa dignidade e integridade física. Sentimos a pandemia e sentimos a falta de um governante capaz de conduzir o seu enfrentamento. Estamos pagando um preço caro.

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