“A figura deste mundo passa”

Postado por: Dom Rodolfo Luís Weber

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O 3º domingo do Tempo Comum tem dois ensinamentos da Palavra de Deus a serem sublinhados. São Paulo diz em 1 Cor 7,29-31 que “a figura deste mundo passa”. O Papa Francisco desejou que este domingo, todos os anos, seja o “Domingo da Palavra de Deus”, pois ela diz: “O céu e a terra passarão, mas minhas palavras jamais passarão” (Marcos 13,31). Estamos diante de duas afirmações aparentemente contraditórias e excludentes. Se assim forem entendidas podem levar a um espiritualismo que ignora e relativiza o valor do mundo ou a um materialismo que, na tentativa de valorizar o mundo, exclui o valor da Palavra de Deus.

Como viver num mundo que passa, e rapidamente, e ao mesmo tempo valorizar o que não passa? É possível conjugar de forma harmônica coisas passageiras e eternas para elevar a dignidade humana? Segundo a Palavra de Deus sim, é possível. É o que se pode concluir com os textos sagrados do domingo. (Jonas 3,1-5.10, Salmo 24/25, Marcos 1,14-20). Os textos escolhidos falam que o “tempo presente já se completou”, que o “tempo está abreviado”, que sobram “quarenta dias”. Para viver bem este mundo que passa o convite é crer na Palavra de Deus e organizar a vida a partir dela. Em momento algum, a Palavra de Deus convida os ouvintes a se refugiarem num espiritualismo ou a rejeitarem o mundo. O próprio São Paulo, um pouco antes havia escrito: “Glorificai a Deus com o vosso corpo” (1 Cor 6,20). O que deve ser rejeitado é construir a vida sobre o que passa pensando que isto é seguro. Os textos são um convite a centralizar a vida sobre tesouros que não são perecíveis e nem podem ser roubados.

Há poucos dias, numa entrevista, o Papa Francisco lembrava que a sociedade está construída sobre valores que permanecem e fundamentam a convivência humana. Os mesmos vão adquirindo novas formas de expressão e de vivência dando a impressão, para muitos, que os valores foram perdidos, desvalorizados ou que perderam a validade. A fonte dos valores cristãos é a Palavra de Deus. O contato constante com ela permite seguir com rumo neste mundo que passa.

Cito dois parágrafos da Carta Apostólica do Papa Francisco Aperuit Illis que institui o “Domingo da Palavra de Deus” para sublinhar a importância dela. “A frequência assídua da Sagrada Escritura e a celebração da Eucaristia tornam possível o reconhecimento entre pessoas que são parte umas das outras. Como cristãos, somos um só povo que caminha na história, fortalecido pela presença no meio de nós do Senhor que nos fala e alimenta. O dia dedicado a Bíblia pretende ser, não «uma vez no ano», mas uma vez por todo o ano, porque temos urgente necessidade de nos tornar familiares e íntimos da Sagrada Escritura e do Ressuscitado, que não cessa de partir a Palavra e o Pão na comunidade dos crentes. Para tal, precisamos de entrar em confidência assídua com a Sagrada Escritura; caso contrário, o coração fica frio e os olhos permanecem fechados, atingidos, como somos, por inumeráveis formas de cegueira. (nº 8)

Quando a Sagrada Escritura é lida com o mesmo Espírito com que foi escrita, permanece sempre nova. O Antigo Testamento nunca é velho, uma vez que é parte do Novo, pois tudo é transformado pelo único Espírito que o inspira. O texto sagrado inteiro possui uma função profética: esta não diz respeito ao futuro, mas ao hoje de quem se alimenta desta Palavra. Afirma-o claramente o próprio Jesus, no início do seu ministério: «Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir» (Lc 4, 21). Quem se alimenta dia a dia da Palavra de Deus torna-se, como Jesus, contemporâneo das pessoas que encontra; não se sente tentado a cair em nostalgias estéreis do passado, nem em utopias desencarnadas relativas ao futuro”. (nº12)

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