O dever cristão para com a verdade

Postado por: Ari Antônio dos Reis

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Não saia dos vossos lábios nenhuma palavra inconveniente, mas na hora oportuna a que for boa para a edificação, que comunique a graça aos que ouvirem (cf. Ef 4,29)

 

Todo o cidadão tem direito, pela Constituição Federal, à livre expressão. Tem também o dever de se manifestar compromissado com a verdade. Verdade, do latim veritas, significa correspondência com a realidade. O contrário da verdade é a mentira, o discurso não correspondente à realidade; é a falácia, o discurso de fundamento falso. Para tanto, quem se expressa publicamente necessita verificar se o conteúdo da manifestação é verdadeiro. É compromisso ético e atitude de respeito aos interlocutores.  

Tem sido comum ouvirmos de governantes de diferentes esferas manifestações distorcidas, não comprometidas com a verdade e que não contribuem com o direito dos cidadãos serem informados sobre fatos e iniciativas que implicam em suas vidas. O compromisso com a verdade é inerente ao serviço público, sobretudo de quem ocupa os escalões superiores.

No que diz respeito ao exercício da liderança cristã, este compromisso é de fundamental importância. Por isso, a necessidade de atenção das diferentes lideranças às manifestações públicas. A fala em uma celebração, live ou encontro formativo, deveria ser de orientação para os interlocutores. Exige esmero na preparação, boa fundamentação teológico/pastoral e compromisso com a verdade.  Quando as lideranças se manifestam devem agir em comunhão com o magistério da Igreja e não a partir das opiniões pessoais. Nos últimos dias, temos visto pelas televisões católicas e redes sociais algumas manifestações duvidosas quanto ao compromisso com a verdade e o Evangelho de Jesus Cristo. São preocupantes. Cito dois fatos:

Desde da eclosão do Covid 19 anseia-se pela vacina que tornaria o organismo humano protegido do vírus, como aconteceu com tantas outras vacinas ao longo da história. Todos tomamos uma ou outra vacina em nossas vidas e isto nos deixou imune a algumas doenças. Em termos de saúde pública elimina o risco de altos investimentos no tratamento de enfermidades, que a vacina previne. Os processos de produção de vacina seguem protocolos rígidos, científicos e éticos, controlados internacionalmente pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e em nível nacional pelas agências reguladoras, no caso do Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Circulou nas redes sociais uma manifestação de um ministro ordenado falando uma série de informações equivocadas sobre a vacina, inclusive sobre a forma como é feita. É uma mentira porque o que dizia não estava em sintonia com a realidade. Não era verdade. Ele minimamente estava desinformado e não verificou a veracidade do que dizia.  A manifestação pública causou alvoroço e muitos acreditaram na informação que “não era verdadeira”. Felizmente, a autoridade diocesana se manifestou e o referido presbítero escreveu uma carta se retratando. Reconheceu o equívoco da sua manifestação. Este mal poderia ser evitado.

Na próxima quarta-feira, dia 17 de fevereiro, inicia a caminhada quaresmal. É tradição na Igreja do Brasil iniciar-se também a Campanha da Fraternidade, neste ano envolvendo outras igrejas cristãs, portanto ecumênica.  Temos aqui duas iniciativas valorosas a partir do universo católico. A primeira é a Campanha da Fraternidade que há mais de cinco décadas tem explicitado a dimensões social da fé e contribui de forma significativa com o diálogo Igreja e sociedade, a partir de proposições importantes para a vida social. Saliento a campanha sobre a água (2004) sobre a ecologia (1979, 2011, 2017), sobre a educação (1998), sobre o combate à violência (1983 e 2018), direito à moradia (1993), trabalho (1978, 1991 e 1999), saúde (1981 e 2012), economia (2010), tráfico humano e trabalho escravo (2014). São temas importantes que a Igreja oferece para a sociedade debater e refletir. E tem feito muito bem. Estão em plena sintonia com o Evangelho de Cristo, com a tradição eclesial e com a missão dos cristãos no mundo de hoje. Cada Campanha da Fraternidade é aprovada por um colegiado de bispos e os materiais disponibilizados passam por rígida verificação.  A segunda iniciativa diz respeito ao fato da campanha ser ecumênica, ou seja, envolver outras igrejas Cristãs. Significa um alcance maior, com mais pessoas trabalhando pelo seu êxito. O diálogo ecumênico não é um modismo recente ou bandeira de um pequeno grupo de cristãos. É um compromisso de toda a Igreja Católica Apostólica Romana, referenciado no Concílio Vaticano II (Decreto Unitatis Redintegratio - 1965). Apesar desta rica tradição e da força evangelizadora da Campanha Fraternidade, temos também visto manifestações contrárias à iniciativa. Os argumentos utilizados não são apenas frágeis teologicamente.  São argumentos falaciosos, rompidos com a verdade e de cunho fundamentalista. Não têm também compromisso com a unidade cristã, orientação do Magistério Eclesial (UR 5). Infelizmente, estas manifestações têm vindo de pessoas que se dizem cristãs e até mesmo de ministros ordenados. Não têm ajudado na evangelização.  

Nos dois casos citados se explicitam faltas graves. Não estão em sintonia com o evangelho e com o magistério da Igreja, fartamente documentado.  Semeiam desorientação na vida das pessoas de reta intenção e dispostas a viver uma fé consequente. Apontam para um outro caminho, diferente do desejado por Jesus: “que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti” (Jo 17,21).

Sejamos mais atenciosos com o que falamos em nossos púlpitos e escrevemos em nossas redes sociais. Não temos o direito de desorientar as pessoas. 

Sejamos criteriosos com o que ouvimos e vemos. Perguntemos se está em sintonia com o Evangelho e com as orientações da Igreja, antes de divulgarmos.

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