Campanha da Fraternidade Ecumênica

Postado por: Ari Antônio dos Reis

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Desde 1964 a Igreja Católica no Brasil tem a tradição de, no período quaresmal, mobilizar a Campanha da Fraternidade. Esta iniciativa, fruto da ação do Espírito Santo, começou de forma embrionária em algumas paróquias no Rio Grande do Norte no ano de 1962 e se estendeu para todo o Brasil como um projeto de Igreja envolvendo as dioceses, paróquias e comunidades.

 A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, órgão colegiado de comunhão de participação dos bispos brasileiros, reconhecida canonicamente pelo Vaticano, aprova a cada ano o tema e os materiais da referida Campanha. Por isso, cada tema da Campanha da Fraternidade não é tornado público sem um amplo debate sobre a sua importância e validade. Os materiais postos a disposição do público, a saber, cartazes, vídeos, texto base e via-sacra passam por uma profunda revisão doutrinal, ou seja, nada que é contrário à doutrina eclesial é disposto ao público.

Nos últimos anos as Campanhas da Fraternidade foram enriquecidas com a dimensão ecumênica. Desde o ano 2000, de cinco em cinco anos, o processo é assumido em diálogo com outras Igrejas Cristãs participantes do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs – CONIC, e que buscam uma caminha de proximidade com a Igreja Católica.

Lembro que a Campanha desse ano não é sobre o ecumenismo. Todavia cabe retomar a importância do diálogo ecumênico para a Igreja Católica a partir das orientações do Concílio Vaticano II, especificamente a Declaração Unitatis Redintegratio (Reintegração da Unidade), que reconhece e incentiva o empenho dos cristãos pelo diálogo ecumênico, como diz:  Hoje, em muitas partes do mundo, mediante o sopro da graça do Espírito Santo, empreendem-se, pela oração, pela palavra e pela ação, muitas tentativas de aproximação daquela plenitude de unidade que Jesus Cristo quis. Este sagrado Concílio, portanto, exorta todos os fiéis a que, reconhecendo os sinais dos tempos, solicitamente participem do trabalho ecuménico (UR 4). Demonstra alegria pela participação dos cristãos católicos e sugere o apoio e o zelo dos bispos: este sagrado Concílio verifica com alegria que a participação dos fiéis na ação ecumênica aumenta cada vez mais. Recomenda-a aos Bispos de todo o mundo, para que a promovam com interesse e prudentemente a dirijam (UR 4).

O ecumenismo não é um modismo eclesial ou uma proposta ideológica. É uma orientação doutrinária da Igreja. É a essência da Igreja que busca ser fiel a Jesus Cristo em busca da unidade cristã. Ele queria que todos fossem um como Ele e o Pai eram um (Jo 17,21).

A Campanha da Fraternidade é uma iniciativa valiosa, ao lado de outras iniciativas, das quais destaco a Semana de Oração pela Unidade Cristã, que favorece o diálogo ecumênico, o encontro com outros batizados em Cristo em vista de caminhos de unidade priorizando o que aproxima e relativizando o que afasta.  

A Campanha de 2021, de orientação ecumênica, versa sobre o diálogo, segundo o tema, “fraternidade e diálogo: compromisso de amor”; e o lema, “Cristo é a nossa paz: do que era dividido, fez uma unidade” (EF 2,14a). A proposição do diálogo (caminho da palavra) estende-se às diferentes esferas da vida: familiar, social, política, cultural, religiosa, ecumênica, etc. É o convite para construir pontes e não muros, segundo o que expressa um trecho da oração proposta para este ano: ajuda-nos a testemunhar a beleza do diálogo como compromisso de amor, criando pontes que unem em vez de muros que separam e geram indiferença e ódio (cf. Oração da CF 2021).

 O diálogo supõe a capacidade de escutar o outro, supõe também colocar-se no lugar do outro. O diálogo não pode ser substituído pelo monólogo (uma só palavra), porque as diferenças sugerem a busca de uma proximidade que enriquece e fortalece a identidade. O diálogo supõe a alteridade, a atitude de colocar-se no lugar do outro; e a gratuidade, não agir de forma interesseira, mas visando o bem do outro. Uma pessoa ou grupo que age fechado apenas nas suas ideias e interesses acaba empobrecendo.

O diálogo supõe a disponibilidade de vivermos uma Igreja em saída como sugeria o Concílio Vaticano II, intuição reforçada pelo Papa Francisco na Exortação Evangelii Gaudium (EG 20). A coragem de sair é necessária e permite que encontremos o ressuscitado que partilha a Palavra e reparte o Pão (Lc 24, 13ss). Permite também que nos desafiemos ao exercício da misericórdia, cuidando dos caídos que encontramos no caminho como fez o samaritano (Lc 10, 25-35) e tantos profetas do bem dos nossos dias, os santos ao pé da porta que não cansam de fazer o bem e nisso se fazem um reflexo da presença de Deus (GeE 7). Contribui para que reconheçamos as chagas do Cristo crucificado nos irmãos fragilizados e doentes, sobre tudo neste tempo de pandemia.

Façamos do tempo quaresmal, a oportunidade, pela nossa participação na Campanha da Fraternidade, de vivermos a virtude do diálogo.

 Certamente é um exercício que nos fortalecerá na fé.

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