Corpo e Sangue de Cristo: fé e compromisso

Postado por: Ari Antônio dos Reis

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A Eucaristia une o céu e a terra, abraça e penetra toda a criação – Papa Francisco

Celebramos nesta quinta-feira a Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, um evento de fé marcante na tradição cristã católica que vem desde o século XIII. A celebração é proposta para a quinta feira após a Solenidade da Santíssima Trindade. Celebrar do Corpo e Sangue de Cristo remete os cristãos para a noite da última ceia, quando Jesus entregou aos doze o pão e o vinho, afirmando ali estar o seu corpo e seu sangue e pediu ao grupo que fizesse a memória daquele momento até a sua volta definitiva (Mc 14, 25). Foi um encontro organizado com antecedência (MT 26,19) e marcado pela comoção (Jo 13,21) daquele que seria o último momento do Mestre com o seu discipulado (Jo 13,33) antes do enfrentamento da cruz.

Na última ceia o Filho de Deus se doou à humanidade de forma definitiva nas espécies do pão e do vinho e se fez o alimento da fé de todos os que professam a fé no seu nome. Buscou estar presente de forma permanente no meio dos homens e mulheres em vista da celebração da sua memória e do projeto que inaugurara. Realmente, todas as vezes que nos reunimos na fé para celebrar a eucaristia o fazemos em memória de Jesus Cristo, o ressuscitado que se faz presente em nosso meio como mistério da fé. Por isso, costumamos cantar: “Ele está no meio de nós, sua Igreja povo de Deus”.   Isto porque a Eucaristia une o céu e a terra, abraça e penetra toda a criação. O mundo saído das mãos de Deus, volta a Ele em feliz e plena adoração: no pão eucarístico, para a unificação com o Criador (cf. LS 236).

A oportunidade de celebrar esta memória tem uma fundamentação histórica, primeiro, pelo fato da instituição da eucaristia relatada pelos quatro evangelistas e por Paulo (Mc 14, 17-26; Mt 26, 20-30; Lc 24, 14-23; Jo13,21-30; 1Cor, 11,23-35) conforme o testemunho dos apóstolos. Segundo, pela tradição eclesial que, desde o século XIII, celebra a data por instituição do Papa IV (1261-1264). A fundamentação histórica sustenta o princípio de comunhão de fé. As primeiras comunidades cristãs eram comunidades que também se reuniam em torno da eucaristia e isto fortalecia o testemunho de fé. Somos herdeiros dessa tradição, como escreve São João Paulo II carta Encíclica Ecclésia de Eucharistia    “a Igreja recebeu a Eucaristia de Cristo seu Senhor, não como um dom, embora precioso, entre muitos outros, mas como um dom por excelência, porque dom dele mesmo, da sua Pessoa na humanidade sagrada, e também da sua obra de salvação” (EE 11).

Esta oportunidade é um ato de fé. Acreditamos que Jesus está presente e se transubstancia em corpo e sangue, a partir do pão e vinho ofertados pela comunidade celebrante. A fé leva a ofertar o pão e o vinho e acolher comungantes como corpo e sangue.  “A eucaristia, presença salvífica de Jesus na comunidade dos fiéis e seu alimento espiritual, é o que de mais precioso pode ter a Igreja no seu caminho ao longo da história” (EE 8).

O dom precioso compreende de cada cristão uma resposta. Nos aproximamos da mesa sagrada em busca do alimento da nossa fé. Porém, esta fé não se desdobra em uma perspectiva egoísta ou intimista. Não ficaremos o tempo todo ao redor da mesa eucarística. Faz-se necessário sair, assim com Jesus saiu para enfrentar a cruz e os discípulos, exceto Judas, o acompanharam, ao menos no primeiro momento.

Então, o alimento eucarístico provoca a outros passos e estes devem estar em comunhão com o que foi a vida e missão de Jesus. Ele se deu à humanidade no pão e no vinho, seu corpo e sangue. Ao comungar cada cristão diz sim ao que foi a vida e missão de Jesus e se compromete como sendo também a sua vida e missão. Participar do banquete eucarístico não será jamais um ato mágico ou um propósito intimista. É compromisso de fé com Aquele que se doou pela humanidade e pediu que celebrássemos a sua memória. Ele que “passou no mundo fazendo o bem”, espera que sejamos igualmente instrumentos do bem e sinais visíveis do seu amor por todos os homens e mulheres, especialmente os empobrecidos. Ele espera de nós olhos para ver as necessidades e os sofrimentos dos irmãos e irmãs. Espera também palavras e ações para confortar os desanimados e oprimidos e o empenho, a seu exemplo e mandamento, no serviço a eles (cf. Oração Eucarística VI D, Missal Romano).  

A celebração do Corpo e Sangue de Cristo acolhe este compromisso. É possível que nem todos possam participar do momento celebrativo pela situação ainda delicada pela qual passamos. Sugere-se a retomada dos textos bíblicos que tratam a Eucaristia. Seremos mais comedidos nesta manifestação pública de fé, mas isso não a torna mais fragilizada ou envergonhada. A sobriedade que o momento social pede já é um compromisso eucarístico.  Ele deu a vida por cada um de nós. Cuidemos dessa vida.

Também é possível a experiência da partilha: levar às comunidades que celebram um quilo de alimento não perecível, compromisso assumido pela Arquidiocese de Passo Fundo. Este gesto nos aproximará dos irmãos necessitados que hoje necessitam do “pão” na mesa.

 Seremos os portadores, pela solidariedade, dessa boa notícia.

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