Felipe, André, Jesus e a fome

Postado por: Ari Antônio dos Reis

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O pão em todas as mesas, a Páscoa a nova certeza, a festa haverá e o povo a cantar aleluia.

No próximo domingo, quando iniciaremos a 17ª semana do Tempo Comum, refletiremos o texto da multiplicação dos pães na versão joanina (cf. Jo 6, 1-15). Os outros evangelistas também tratam desse episódio.  João acrescenta traços especiais, segundo a sua leitura do fato. Narra o escrito que Jesus estava próximo ao lago de Tiberíades acompanhado por grande multidão que via os sinais que Ele operava em favor dos doentes e o seguia. Ele estava ajudando a resolver um grande problema do seu tempo, a enfermidade que roubava saúde e a dignidade das pessoas e, em muitos casos colocava em situação de exclusão. Entretanto, existiam outras dificuldades, entre elas a fome.

O texto proposto para a liturgia dominical ilumina o cenário de carência e fome que assola o Brasil. O país que produz muitos alimentos tem parte da sua população ameaçada pela fome.

Ao perceber a multidão se aproximando, Jesus perguntou a um dos discípulos onde iriam comprar pão para todas aquelas pessoas. Jesus sempre se preocupava com as necessidades do povo. Isto era importante na sua missão.  A pergunta foi feita com intenção de entender o que o discípulo pensava sobre a sua preocupação. E Felipe respondeu na perspectiva de que a compra de alimentos fosse a única solução. Estava preocupado porque não tinham os valores, afinal todos eram pobres. Esta foi a leitura de Felipe da problemática.  Queria resolver a situação, alimentar a multidão, mas não tinham dinheiro suficiente. Era necessário mais do que dinheiro. Não se resolveria a situação no regramento previsto.

André viu a questão de um ângulo diferente, quem sabe um olhar mais apurado. Viu um menino com cinco pães e dois peixes. Havia alimento junto das pessoas que acompanhavam Jesus. Era necessário colocar à disposição de todos que estavam ali. André achava que não seria suficiente para tantas pessoas. Não previa a partilha.

 E Jesus mostrou isso aos discípulos e à multidão. Antes de tudo é necessário que ninguém reserve o que é seu para si mesmo, se há outros que passam fome. Seus discípulos teriam que aprender a pôr à disposição dos famintos o que tinham, mesmo sendo apenas “cinco pães e dois peixes (cf. Pagola 2013, p. 84).

Primeiramente pediu que todos sentassem. Não era um gesto banal, para nós hoje tão comum. Sentar-se para comer significava comer com dignidade. Não comeriam em pé como os escravos daquele tempo, ou com pressa, diante de grande ameaça (Ex 12,11). Comeriam sentados, com tranquilidade e dignidade. O segundo passo: tomou o que tinha, pães e peixes, agradeceu a Deus pois aquele alimento era dom de Deus. É o dom do Pai destinado a todos os seus filhos e filhas. A humanidade não pode esquecer isso. Em seguida veio o terceiro passo, a distribuição para todos, sem discriminação, pois todos estavam com fome. O texto descreve que quando todos ficaram satisfeitos Jesus pediu que recolhessem o que havia sobrado.

Vejam que da constatação da carência imaginária expressa na pergunta, “onde vamos dar de comer para tanta gente”, chegou-se a constatação da abundância verdadeira, pois, “recolheram doze cestos com os pedaços que sobraram”. Entre a carência imaginária e a abundância verdadeira estava Jesus. Ele agiu em nome dos famintos e saciou-lhes a fome provocando a partilha. A solução prevista por Felipe dentro das leis do “come quem tem dinheiro para comprar comida” foi ineficaz. O caminho assumido por André foi limitado. Viu alimentos, mas não conseguiu perceber a potencialidade da partilha.

Jesus mostrou outro caminho ao prever o problema e a buscar a solução para o mesmo, aliando a sua divindade e as possibilidades que ali existiam: um menino com cinco pães e dois peixes, ou seja, pessoas que poderiam partilhar o alimento.  João descreve este sinal da presença viva do enviado de Deus para saciar a fome de pão da humanidade. E, como descreverá em seguida, não apenas o pão que sacia a fome física, mas o pão da vida eterna que sacia a fome de Deus (cf. Jo 6,33).

Retomemos o contexto brasileiro já marcado pela carência e fome. Certamente a pandemia que já dura mais de ano agravou a situação. Mas não esqueçamos o histórico de desigualdade que caracteriza a trajetória dessa nação. A miséria e a fome fazem parte da nossa história com maior ou menor incidência. Diante dessa constatação compreendemos que o orgulho de produzir alimentos exige o compromisso de não deixar que a fome bata à porta do seu povo.

 A fome do meu irmão não é problema dele, é problema nosso.  O sinal deixado por Jesus na multiplicação dos pães e peixes, segundo o evangelho de João, contempla este entre outros ensinamentos.

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