RABISCOS SEMANAIS: À história, celebrar!

Postado por: Leandro de Mello

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Celebrar é dimensão essencial e indispensável à vida verdadeira e plenamente humana. O celebrar transparece, mesmo singelamente, a expressão da interioridade da pessoa. Indica ação humana e alude ao transcendente. Aos 7 de agosto, Passo Fundo, Capital do Planalto Médio (690 metros de altitude), Capital Nacional da Literatura e Internacional do Festival de Folclore, celebra seu 164º aniversário de instalação da Câmara Municipal, com poderes executivos e legislativos, uma vez que sua emancipação, registra-se a 28 de janeiro de 1857. A saber, como povoação, nascera muito antes. Há registros, segundo Fabrício Vicroski e Tau Golin, de reduções jesuíticas na região (Redução Jesuítica de Santa Teresa do Ygaí, em 1632, no Povinho Velho), com presença de povos Guaranis e Jês (ancestrais dos kaingangs), as margens do Rio Jacuí.

A ação celebrativa ganha sentido quando seu significado identifica-se com a vivência cotidiana: uma união de fé e vida celebrada de tal forma que transmita, que comunique a profundidade do sentido do celebrar. Cada cultura expressa sua fé com características singulares que a identifica. O contexto da vivência humana mostra-se intrinsecamente inserido em sua ação e o referencial sagrado a guia.

A Matriz Nossa Senhora da Conceição, situada na rua Uruguai 1717, centro, conta anos à história passofundense, sendo a paróquia mais antiga da região e também padroeira municipal, fato pelo qual suas histórias unificam-se a ponto de se confundirem. Relatos históricos informam que, por volta de 1826, os primeiros povos colonizadores, chegados a Passo Fundo, instalaram-se na região, onde hoje fica a Praça Tamandaré.

Nessa região, muitas pessoas transitavam, haja vista as terras serem local de pouso obrigatório para tropeiros e caravanas, devido às fontes de águas puras. Quando chegou, à região, Manoel José das Neves (Cabo Neves) edificou morada nas proximidades da Praça Tamandaré; em 1831, recebera concessão de posse de “uma gleba de terras de quatro léguas quadradas, no Alto Uruguai” (Ney Eduardo Possapp D´AVILA, Uma história concisa da cidade e do município de Passo Fundo: terra de passagem, 1996, p. 52). Assim, no entorno, arquitetaram-se inúmeras moradias, ao longo do caminho dos tropeiros, constituindo-se um povoado.

No período do Brasil Imperial, a união entre a Igreja e o Estado legitimou que todo povoado deveria construir um templo para as práticas religiosas. Desta forma, desde 1830, as primeiras providências para a permissão da construção de uma capela foram encaminhadas às autoridades eclesiásticas. Dada a disponibilidade do terreno para a edificação do templo, Joaquim Fagundes dos Reis, unindo outros cidadãos, moradores do povoado, dirigiu solicitação às autoridades eclesiásticas para a autorização da construção. Dessa forma, sob a influência dos tropeiros paulistas residentes no povoado, ergueu-se a primeira capela da região, em honra a Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Iniciada em 1834, no ponto mais alto do povoado (Catedral atualmente), a capela fora concluída e consagrada a 23 de agosto de 1835. Vésperas da Revolução Farroupilha (1835-1845).

A 26 de novembro de 1847, após ser reformada, a capela, por força da lei provincial, foi elevada à condição de freguesia, passando a ser conhecida como “Freguesia de N. S. da Conceição bem Aparecida de Passo Fundo”. A 13 de dezembro de 1847, fora provisionado o primeiro cura, Pe. Francisco da Mãe de Deus Cunha e o coadjutor, Pe. Antônio de Almeida Leite Penteado.

Dom Cláudio José Gonçalves Ponce de Leão, bispo de Porto Alegre, em 17 de dezembro de 1891, ao realizar a primeira visita episcopal, assina o livro tombo da paróquia, denominando-se “Bispo de São Pedro do Rio Grande do Sul”, aonde registra-se: “Com grande consolação nossa achamos já resolvida a edificação de uma nova matriz. Que Deus abençoe o tão santo desejo, e que sirva este novo templo, erigido em sua honra e de Maria Imaculada. Sirva ele de fundamento da mais santa e mais perfeita união entre os povos residentes neste município” (Livro tombo, n. 1, p. 1).

Desta forma, em 01 de janeiro de 1893, ocorreu a transferência da igreja, à Praça Tamandaré, sendo lançada a pedra fundamental da atual Paróquia Nossa Senhora da Conceição, em terreno doado por Ramon Rico (Delma Rosendo GEHM, Passo Fundo através do tempo. n. 1, p. 40). Porém, devido a Revolução Federalista (1893-1895; Batalha do Pulador, 1894) interromperam-se as atividades. Reorganizando-se, posteriormente, o crescimento da cidade e de toda a paróquia, em 1909, conclui-se a capela. Contavam-se, em 1910, quase 7 mil domicílios.

Quando, em 20 de janeiro de 1950, Dom Antônio Reis inaugura a Catedral Nossa Senhora Aparecida, a Paróquia Nossa Senhora da Conceição recebe a menção de “Matriz Conceição”. O Papa Pio XII, em 10 de março de 1951, decreta e assina a criação da Diocese de Passo Fundo, transcrito na Bula “si qua dioecesis” e, em 13 de abril de 2011, o Papa Bento XVI concede a elevação para Arquidiocese, tornando-a Sé Metropolitana da Província Eclesiástica, tendo como sufragâneas as dioceses de Vacaria, Frederico Westphalen e Erexim.

A evangelização da comunidade cristã mescla-se à história. Aos jovens evidencia-se significativo zelo pastoral, aos domingos, nas missas para a juventude, em horário especial, às 11h, na década de 1970. “A iniciativa partiu de um grupo de jovens orientado pelo Pe. José Euclides de Oliveira” (Livro tombo, n.3, p. 94). O grupo de jovens, em 1976, mesmo com limitações, reunia-se aos sábados na sede paroquial para diversas atividades e, em especial, a preparação das celebrações juvenis. A comunidade paroquial envolvia-se às atividades e organizações da juventude; houve inclusive, aquisição de instrumentos musicais.

Os jovens vocacionados à vida presbiteral, em 1987, cursando Teologia, estabeleceram-se na Matriz Conceição formando aí a comunidade de estudantes. Atualmente, jovens secundaristas, residem na Matriz, realizando processo de discernimento vocacional, pelo Seminário Sagrado Coração de Jesus. Neste 2021, em que a Matriz Conceição festeja seu 174º aniversário e a Arquidiocese de Passo Fundo, abrangendo 47 municípios da região norte gaúcha, celebra 70 anos, o Município de Passo Fundo, aos 164 anos, ultrapassa 200 mil habitantes.

Há, portanto, significativas razões para celebrar Agosto, também chamado mês vocacional, evocando o tema: “Cristo nos salva e nos envia!” e o lema: “Quem escuta a minha palavra possui a vida eterna” (Jo 5, 24). Toda e qualquer celebração, nunca irá se repetir, pois ela é parte integrante da vivência humana que está diretamente relacionada ao universo ao qual a(s) pessoa(s) vive e se encontra em alteridade. Um ambiente tecido de trabalhos, preocupações, tarefas, festividades, comemorações e inúmeras outras características que, direta ou indiretamente, influenciam seu modo de viver e celebrar a fé. Parabéns, Passo Fundo!

Padre Leandro de Mello - @padreleojuventude. Passo Fundo, 03 08 2021.

 

 

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