Em nome de Jesus?

Postado por: Ari Antônio dos Reis

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Já se passaram mais de dois mil anos do nascimento de Jesus. No ano de 2033 teremos o jubileu da redenção. O apóstolo Paulo na carta aos Filipenses convida a comunidade a ter os mesmos sentimentos de Cristo, e relata a decisão do filho de Deus de deixar a condição divina assumindo a condição humana, de servo, assumindo a morte de cruz em nome da salvação da humanidade (cf. Fil 2, 5-11). O convite estende-se também aos cristãos hodiernos.

A tradição cristã se fundamenta nos evangelhos como fonte primeira para conhecer a vida, proposta e missão de Jesus. Através deles e de outras fontes secundárias, nos apropriamos de informações fundamentais sobre Ele, tais como: nascimento na cidade de Belém durante uma viagem necessária de seus pais; na infância e adolescência morou na pequena aldeia de Nazaré, que não tinha muitos habitantes; era filho do carpinteiro José, que ganhava o sustento para a família através do ofício de artesão em madeira; como todo o judeu, foi iniciado na Sinagoga de sua aldeia, tendo um bom conhecimento da tradição cultural e religiosa do seu povo, tendo um bom conhecimento do ambiente; sendo filho de uma família pobre viveu integrado à vida dos pobres do seu tempo.

Os escritos dos evangelistas (anunciadores da boa nova de Jesus) tinham por objetivo apresentá-lo para as comunidades cristãs do seu tempo. Cada evangelista traça um perfil de Jesus, segundo o seu objetivo e as necessidades das comunidades destinatárias. Entre eles existe um fio condutor, proximidades e distanciamentos que não prejudicam a expressão homogênea sobre Jesus.  O fato dos Evangelhos serem escritos em épocas diferentes, em contextos diferentes e voltados a públicos diferentes, implica na forma do escrito. O que está em sintonia é o desejo de apresentar Jesus Cristo para as comunidades cristãs do primeiro século.  Os Evangelhos fundamentam o conhecimento sobre Jesus na perspectiva de adesão à sua proposta.

Os cristãos têm esta rica tradição que sustenta sua missão no mundo, a qual dão continuidade e devem fidelidade. O Documento de Aparecida define assim a relação dos cristãos com Jesus: “Conhecer a Jesus Cristo pela fé é nossa alegria; segui-lo é uma graça, e transmitir este tesouro aos demais é uma tarefa que o Senhor nos confiou ao nos chamar e nos escolher” (DAp 18).  Não é possível para um cristão falar de Jesus sem o compromisso com a sua proposta. Este compromisso tem sustentado o testemunho dado por pessoas de fé ao longo dos anos, iniciado com os apóstolos (cf. At 2, 40-41), continuado pelas primeiras comunidades cristãs e levado à frente pelos cristãos na atualidade.

 O testemunho exige o conhecimento de Jesus, como descrito acima. As primeiras fontes desse conhecimento são as narrativas dos evangelistas, aceitas como verídicas pela Igreja. O acesso aos evangelhos compreende a exegese, que significa conhecer Jesus a partir do seu contexto de vida, mediado pelos evangelhos. Parte também da hermenêutica, que é a correta intepretação e atualização da vida do Nazareno para os nossos dias.

Não é possível para uma pessoa assumir-se como cristã com palavras, expressões, propostas e atitudes, desconhecendo o conhecimento mínimo sobre Jesus. Por isso é necessário todo empenho em uma correta iniciação à vida cristã e a evangelização em uma perspectiva mais ampla, porque “Todos têm o direito de receber o evangelho. Os cristãos têm o dever de anunciá-lo, sem excluir ninguém, e não como quem impõe uma nova obrigação, mas como quem partilha uma alegria, indica um horizonte estupendo, oferece um banquete apetecível” (cf. “Evangelli Gaudium” n. 14)

O compromisso dos cristãos é evangelizar com fidelidade ao Reino anunciado por Jesus, expresso em suas palavras atitudes e ações. Reflete-se esta questão diante de tantas manifestações de cristãos em nome de Jesus, mas que têm muito pouco a ver com o evangelho de Cristo.

 Como é possível uma pessoa seguidora de Jesus, liderança comunitária, assumir a prática racista? Que Jesus esta pessoa prega e segue? Ou então, dizer em uma celebração que se deveria falar mais de Jesus e deixar lado as dores e sofrimentos do povo (racismos discriminações, fome, miséria, entre outras). Novamente a pergunta: que visão de Jesus sustenta esta celebração? 

Se ainda permeia a visão desse Jesus indiferente à realidade do Povo, serve-se a esses “pseudo-cristãos” não apelar a entrada do Reino dos Céus, pois nisso, Mateus relata no capítulo sétimo: “Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizamos, expulsamos demônios e fizemos tantos milagres?” Jesus responderá: “Nunca conheci vocês. Afastem-se de mim, vocês que praticam a maldade” (Mt 7, 21-23)

O questionamento direciona também a práticas sociais e políticas sustentadoras de relações de ódio, fundamentalismo e violência. Nesses processos de construções humanas, existe realmente um princípio de fidelidade ao que foi prática de Jesus conhecida pela humanidade através do evangelho?

O filho de Deus foi uma pessoa pobre que viveu em meio aos pobres. E sua vida estava em plena sintonia com quem mais sofria como expressa a seguinte oração: “Ele sempre se mostrou cheio de misericórdia pelos pequenos e pobres, pelos doentes e pecadores, colocando-se ao lado dos perseguidos e marginalizados. Com a vida e a palavra anunciou ao mundo que sois Pai e cuidais de todos como filhos e filhas” (Missal Romano p. 860).

É necessário filtramos as práticas e expressões que têm pouco a ver com a proposta de Jesus Cristo, pois não contribuem na atividade evangelizadora., que é o sentido da ação dos cristãos em tempos atuais.

 É pecado grave usarmos o nome de Jesus para justificar processos rompidos com a sua causa.

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