Sínodo e participação eclesial

Postado por: Ari Antônio dos Reis

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O Papa Francisco propôs para os próximos anos um grande Sínodo da Igreja Católica com o tema: "Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão". É a oportunidade ampla para a participação de todos os cristãos católicos e pessoas de boa vontade nas decisões sobre a missão evangelizadora da Igreja. A discursar nas comemorações pelo Cinquentenário da Instituição do Sínodo dos Bispos no dia 17 de outubro de 2015, afirmou que “o caminho da sinodalidade é o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milênio, ou seja é um compromisso irrenunciável e constitutivo da missão da Igreja enquanto discípula de Jesus Cristo porque toda a ação eclesial brota de Jesus Cristo e se volta para Ele e para o Reino do seu Pai”. Jesus Cristo é a razão do ser da Igreja, do seu agir (CNBB, 4, 2011), motivo das suas articulações e processos de planejamento em vista do anúncio do seu nome.   A Igreja existe por causa do evangelho. Sua missão é evangelizar. Sem este princípio perderia sua identidade e sua razão existencial.

A partir dessa motivação primeira, evangelizar, a Igreja foi ao longo dos anos contemplando caminhos para dar conta da responsabilidade. Um dos caminhos encontrados e com eficácia no compromisso evangelizador foi o método sinodal. A referida expressão, possivelmente um pouco estranha para alguns ouvidos, não é novidade na trajetória eclesial. Esteve presente na sua história com maior ou menor intensidade.  A expressão Sínodo é oriunda do termo grego sýnodos. Significa caminhar juntos. Em uma perspectiva eclesial significa caminhar juntos depois de uma decisão tomada conjuntamente, com a participação de todos. Então Sínodo sugere um objetivo comum, a partir do diálogo estabelecido, que compreende a caminhada em comum. É o processo de decidir e fazer juntos.  A Palavra de Deus apresenta um primeiro encontro de vulto diante de uma decisão importante no universo das primeiras comunidades cristãs (At 15,12-29). Estava em debate a evangelização dos nãos judeus e a inculturação do evangelho. Foi necessário o diálogo antes da tomada de decisão quanto ao anúncio de Jesus (At 15,22-29). Desde então a Igreja foi assumindo a perspectiva Sinodal diante dos desafios da missão.

No Concílio Vaticano II a sinodalidade na Igreja ganhou vulto a partir da iniciativa do Papa São Paulo VI ao instituir o Sínodo dos Bispos em 15 de setembro de 1965. Visava abordar, fiel à tradição, as questões de maior importância para a Igreja, aquelas que exigem zelo, carinho, profundidade e atenção no seu tratamento em vista do bem da Igreja e da obra evangelizadora. Ao publicar a Constituição Apostólica Episcopalis Communio o Papa Francisco reconhece a importância desse processo ao longo da História: “durante mais de cinquenta anos, as Assembleias do Sínodo revelaram-se um válido instrumento de conhecimento mútuo entre os Bispos, oração comum, confronto leal, aprofundamento da doutrina cristã, reforma das estruturas eclesiais, promoção da atividade pastoral no mundo inteiro. Assim, tais Assembleias não só se configuraram como um lugar privilegiado de interpretação e recepção do rico magistério conciliar, mas ofereceram também um impulso notável ao sucessivo magistério pontifício” (EC 1).

No mesmo documento o Papa Francisco lembrou uma característica importante do Sínodo, a escuta. Assim Escreve: o Sínodo dos Bispos deve tornar-se cada vez mais um instrumento privilegiado de escuta do Povo de Deus: para os Padres sinodais, pedimos, do Espírito Santo, antes de mais nada o dom da escuta: escuta de Deus, até ouvir com Ele o grito do povo; escuta do povo, até respirar nele a vontade de Deus que nos chama (cf. EC 6). Compreendemos a escuta como algo que vai além do meramente ouvir. A escuta provoca a pergunta sobre o sentindo da palavra dita e que chega aos ouvidos do receptor. Assemelha-se a escuta de Deus aos clamores de Agar que pedia a morte no deserto (cf. Gn 21, 15-21) ou a escuta do povo hebreu que clamava a liberdade (Ex 3,7). Escutar é comprometer-se e enriquecer-se com a provocação de quem fala, pede ou clama.

Ainda no discurso celebrativo pelos Cinquenta anos do Sínodo o Papa reforçou a profundidade e amplitude da escuta, segundo o caminho da sinodalidade. Disse: “uma Igreja sinodal é uma Igreja da escuta, ciente de que escutar é mais do que ouvir. É uma escuta recíproca, onde cada um tem algo a aprender, povo fiel, colégio episcopal, bispo de Roma: cada um à escuta dos outros; e todos à escuta do Espírito Santo, o Espírito da verdade (Jo 14, 17), para conhecer aquilo que Ele diz às Igrejas (Ap 2, 7)”.  A disponibilidade em escutar implica em abrir-se à participação de todos.

A Igreja é constituída por uma diversidade de ministérios e serviços inspirados pelo Espírito Santo (1 Cor 12, 4-11). É Povo de Deus, reunido na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo (cf. LG 4), com a missão de continuar a obra redentora de Jesus. Para tanto, quantos mais pessoas comprometidas com a causa de Jesus tomarem parte nas decisões quanto à evangelização, mais sinodal e aberta à participação Igreja será. A dimensão da sinodalidade tem se expressado em terras latino americanas e caribenhas através do processo e escuta, encerrado em agosto desse ano e que terá continuidade com outros processes ligados à grande Assembleia Eclesial Latino Americana e Caribenha.  Entretanto está em curso um processo mais amplo e que envolve a Igreja presente em todo o mundo habitado. É o Sínodo proposto pelo Papa Francisco. Em várias ocasiões, o Papa disse que espera propostas corajosas para a Igreja. Sejamos ousados e, sob a luz da fé, cuidadosamente, sem medo trilhemos este caminho de participação. 

Somos convidados a viver este momento de graça aberto à participação de todos. Assumamos a partir da nossa fé porque: a sinodalidade representa a via mestra para a Igreja, chamada a renovar-se sob a ação do Espírito e graças à escuta da Palavra. A capacidade de imaginar um futuro diferente para a Igreja e para as suas instituições, à altura da missão recebida, depende em grande medida da escolha de encetar processos de escuta, diálogo e discernimento comunitário, em que todos e cada um possam participar e contribuir. Ao mesmo tempo, a escolha de “caminhar juntos” constitui um sinal profético para uma família humana que tem necessidade de um projeto comum, apto a perseguir o bem de todos (cf. Documento preparatório ao Sínodo p. 9. 2021). Estamos entrando num kairós, um tempo favorável para ser “Igreja em saída” e caminhar juntos. Participemos desse momento de graça.

Pe Ari Antonio dos Reis e seminarista Silvonei Luiz Roling

 

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