A identidade missionária da Igreja

Postado por: Ari Antônio dos Reis

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Não podemos deixar de falar do que vimos e ouvimos! (At 4,20).


Estamos no mês de outubro, tradicionalmente celebrado na Igreja Católica como o mês missionário. A missão é a motivação do ser e do agir eclesial. O Decreto Ad Gentes, sobre a atividade missionária da Igreja, promulgado no Concílio Vaticano II, afirma no primeiro parágrafo: “a Igreja, enviada por Deus a todas as gentes para ser ‘sacramento universal de salvação’, por íntima exigência da própria catolicidade, obedecendo a um mandato do seu fundador, procura incansavelmente anunciar o Evangelho a todos os homens (AG 1). Este compromisso é assumido em vista do anúncio e concretização do Reino, inaugurado por Jesus Cristo, assumido pelos apóstolos e continuado pelos cristãos ao longo da história.

Em fidelidade a Jesus Cristo a Igreja compreende a atividade missionária como algo irrenunciável, porque ali está a sua natureza, a sua identidade, segundo o decreto citado: “a Igreja peregrina é, por sua natureza, missionária, visto que tem a sua origem, segundo o desígnio de Deus Pai, na ‘missão’ do Filho e do Espírito Santo” (AG 2).

 O compromisso com a missão vai erigindo e fortalecendo a Igreja. Peregrinando no mundo ela se compromete com o anúncio de Jesus Cristo para as pessoas e povos em vista do conhecimento e seguimento do Filho de Deus, como prescreverem os bispos latino americano e caribenhos durante a Conferência de Aparecida. Diz o texto. “Conhecer a Jesus Cristo pela fé é nossa alegria; segui-lo é uma graça, e transmitir este tesouro aos demais é uma tarefa que o Senhor nos confiou ao nos chamar e nos escolher. Com os olhos iluminados pela luz de Jesus Cristo ressuscitado, podemos e queremos contemplar o mundo, a história, os nossos povos da América Latina e do Caribe, e cada um de seus habitantes” (DAp 18). Esse compromisso, assumido nos continentes latino-americano e caribenho, tem uma dimensão universal. Está no horizonte das Igrejas particulares do mundo todo.

 O chamado é exigente e não compreende uma Igreja fechada, centrada em si mesma e comprometida com seus próprios interesses.  O Papa Francisco, na Exortação Evangelii Gaudium, convida a Igreja a sair para evangelizar e este sair é benéfico para si mesma e para a humanidade. Escreveu. “Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! Repito aqui, para toda a Igreja, aquilo que muitas vezes disse aos sacerdotes e aos leigos de Buenos Aires: prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos. Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força, a luz e a consolação da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida. Mais do que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa proteção, nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentimos tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta” (EG 49). Ao sair a Igreja encontrará a adversidade, a insegurança, o temor de estar em um território físico e existencial configurados como grande novidade. Contudo, será o seu lugar e o seu território missionário. Ela estará ali para servir. Necessita fazer o mesmo caminho dos discípulos enviados por Jesus sem nada que amarre (Lc 10,4), para estar totalmente disponível para fazer o bem. Sua única segurança é o evangelho.  

O tema proposto para esse ano é “Jesus Cristo é missão”. O lema, “não podemos deixar de falar sobre o que vimos e ouvimos” (At 4,20), está profundamente imbricado como a índole missionária da Igreja, sobretudo em situações adversas. Pedro e João ao enfrentaram corajosamente os seus adversários e insistiram na necessidade de testemunhar Jesus Cristo. Nesse compromisso preferiram obedecer a Deus e não aos homens (At 4,19).  A experiência por eles vivida os fez fortes e corajosos para levar à frente a missão, como pedira o Filho de Deus naquele monte na Galileia (cf. Mt 28, 1-20). Implica, como pede o Papa Francisco em levar a alegria do Evangelho, do encontro com Jesus para outras pessoas, um bem que urge ser comunicado porque “toda a experiência autêntica de verdade e de beleza procura, por si mesma, a sua expansão; e qualquer pessoa que viva uma libertação profunda adquire maior sensibilidade face às necessidades dos outros. E, uma vez comunicado, o bem radica-se e desenvolve-se. Por isso, quem deseja viver com dignidade e em plenitude, não tem outro caminho senão reconhecer o outro e buscar o seu bem” (EG 9).

 Compreendamos o compromisso missionário como necessidade da Igreja e também como possibilidade de realizar-se na história em fidelidade a Jesus. Nessa ação ela vai realizando a obra de Deus transformando pessoas e realidades a partir dos critérios do Reino (cf. EN 18) e dando sentido a sua existência.

 Ao propor-se à missão, a própria Igreja, através de seus diferentes agentes de pastoral, chega onde deveria chegar, oferecendo o que tem de melhor, a proposta de Jesus Cristo.  Aqui está a razão da sua existência, a sua identidade.

Pe. Ari Antonio dos Reis

 

           


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