Finados: a vida continua na eternidade

Postado por: Ari Antônio dos Reis

Compartilhe

Em Cristo todos reviverão!  (1Cor15,22)

 

No segundo dia do mês de novembro é celebrado o dia de finados. As diferentes culturas dedicam atenção especial às pessoas falecidas. Esta prática vem desde a antiguidade, envolvendo os diferentes povos. Eles buscam através dos ritos lembrar a pessoa que partiu. O rito pode ser uma festa, orante, de lamentação ou de retrospectiva da vida da pessoa. Viabiliza a homenagem e o diálogo com quem partiu. A memória dos falecidos uma exigência nessas culturas e mantém o diálogo respeitoso com os que não estão presentes fisicamente.  

A celebração de memória dos finados no seio católico teve as primeiras iniciativas através das comunidades cristãs do primeiro século. Os cristãos, perseguidos pelo Império Romano, enterravam e rezavam por seus mortos nas catacumbas subterrâneas da cidade de Roma. Eles mereciam respeito e consideração pelo testemunho dado.  Eram os que alvejaram suas roupas no sangue do cordeiro como descreve um trecho do livro do Apocalipse (Ap 7,14). Os primeiros cristãos não esqueciam seus mortos e não deixavam de rezar por aqueles que deram a sua vida pela proposta cristã. Posteriormente, na segunda metade do primeiro milênio, com a orientação de dedicar um dia para rezar pelas almas dos que partiram, a prática foi reforçada. A partir de então a tradição espalhou-se por todo o mundo cristão. Através da oração os vivos lembravam e pediam pelos entes falecidos.

 Para os cristãos católicos a data de finados é um dia de memória e de culto.  Memória pela lembrança das pessoas que fizeram parte de cada história pessoal e não estão mais presentes fisicamente. A memória independe do acento religioso, seja qual for o seu matiz. É uma condição humana. Sempre lembraremos de quem foi importante em nossa trajetória, esteja vivo ou na eternidade.  Ela está misturada com a saudade, pela ausência, e também pela lembrança dos bons momentos vividos. Recorda a finitude humana. Lembra também a capacidade de afeto, carinho e não esquecimento daqueles que amaram e foram amados.

O culto, seja qual for a sua identidade, implica a dimensão religiosa. Os povos encontram dentro do arcabouço religioso próprio uma forma de homenagear os que já morreram.   Para os cristãos o culto tem como referência a fé e a crença na ressurreição. Ele engloba a memória e a coloca em um âmbito orante. Traz-se memória dos mortos rezando-se por eles, acendendo velas ou oferecendo flores.

E a oração fundamenta-se em Jesus Cristo, o primogênito entre os mortos, aquele que ressuscitou e derrubou de forma definitiva a barreira da morte. Na carta à Comunidade de Corinto o apóstolo Paulo afirma: Cristo ressuscitou dos mortos com primícias dos que morreram. Por Ele veio a ressurreição (cf. Cor 15,20). Ele abriu o caminho para todos os que acreditaram na sua proposta, no Reino anunciado, e deixou isto explícito no diálogo com os discípulos: na casa de meu Pai existem muitas moradas. Se assim não fosse vos teria dito. Quando eu for e tiver preparado um lugar, voltarei e vos levarei comigo, para que estejam comigo (Jo 14, 1-3). O Filho de Deus afirmou que a morte não teria poder sobre Ele e nem sobre a sua proposta. Por isso, a pregação apostólica se fundava no ressuscitado, o Homem que venceu a morte e, ressuscitado ordenou que continuassem a sua obra (cf. Mt 28,16ss).

Possivelmente esta data, nestes tempos ainda difíceis de pandemia, se reveste de uma profundidade especial. Muitas famílias não realizaram a despedida dos enfermos enquanto vivos pelo risco de contaminação. E muitos não puderam se despedir dos seus entes queridos ou ter um momento de oração pós morte, como prescreve a tradição de fé. A dor da perda foi agravada pela dor de não poder despedir-se. A fé no Ressuscitado ajudou nesses momentos pesados e doloridos porque nele brilha para todos a esperança da feliz ressurreição e, se a certeza da morte entristece a todos, a promessa da imortalidade consola muitos. A vida não é tirada, mas transformada (cf. Missal Romano, p. 462), tudo isso pela graça misericordiosa de Deus.

A memória dos mortos tem o acento bonito da afetividade. Não esquecemos quem foi importante para nós, para a comunidade ou para a sociedade. Tem o acento da fé. Rezamos por eles, que nos precederam na eternidade, porque sabemos que este será o nosso caminho, pois um dia todos nos encontraremos na eternidade.

Pe. Ari Antonio dos Reis

 

Leia Também O Senhor está próximo És tu o Messias esperado? OS TRÊS OPERÁRIOS RABISCOS SEMANAIS: Rosto de Emanuel!