Dia Mundial dos Pobres

Postado por: Ari Antônio dos Reis

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Desde o encerramento do Ano da Misericórdia (2016) o Papa Francisco propôs que a Igreja celebrasse o dia Mundial dos Pobres no domingo anterior à Solenidade de Cristo Rei. Nesse ano está na sua quinta edição. O Papa sugeriu esta iniciativa para “ajudar as comunidades e cada batizado a refletir como a pobreza está no âmago do Evangelho e tomar consciência de que não poderá haver justiça nem paz social enquanto Lázaro jazer à porta da nossa casa (cf. Lc 16,19-21). Além disso este dia constituirá uma forma genuína de nova evangelização, procurando renovar o rosto da Igreja na sua perene ação de conversão pastoral para ser testemunha da misericórdia” (Papa Francisco).

A orientação do Papa Francisco é de alcance ímpar e ajuda a solidificar o compromisso da Igreja misericordiosa e solidária com os pobres, porque quer ser fiel a Jesus, assumindo também as suas atitudes. A opção pelos pobres é condição da fé cristã compromisso cristão, como lembrava o Papa Emérito Bento XVI durante a Conferência de Aparecida. Afirmou: “a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com sua pobreza” (cf. 2Cor 8,9) (Papa Bento XVI, Discurso Inaugural da  Conferência de Aparecida).

A tradição bíblica apresenta várias orientações para o povo de Deus na perspectiva da necessária atenção aos pobres. O estudo proposto para o mês da Bíblia em 2020 convidava a refletir o Livro do Deuteronômio, especificamente a partir do lema “abre a tua mão para o teu irmão” (Dt 15,11), na perspectiva de iluminar as relações com os empobrecidos. O evangelista Lucas apresenta o filho de Deus, anunciando sua missão a partir do compromisso libertador com os sofredores do seu tempo (cf. Lc 4, 16-20). Marcos acentua na missão de Jesus a prática libertadora de tantas situações de negação da dignidade humana, agindo para a sua superação, através do gesto da partilha (cf. Mc 6, 34-44). Mateus descreve o discurso escatológico de Jesus, onde se coloca na pessoa do empobrecido e afirma a atenção aos últimos como critério de salvação (Mt 25, 34-40). Os primeiros cristãos se viram desafiados a enfrentar a situação da pobreza, inclusive designando pessoas especiais para o atendimento das viúvas, rosto dos pobres daquele tempo (At 6, 1-6). Assim, a tradição cristã foi incorporando ao longo do tempo, o compromisso com os pobres que se apresentam com rostos e experiências de vida diferenciados (cf. DAp 65).

Todavia é mister compreender que a pobreza, ao longo da história, não é fruto do acaso. Ela é consequência do egoísmo e ganância do ser humano e, em tempos de economia de mercado se agrava mais, como explica o Papa Francisco na Exortação Evangelii Gaudium. Ele chama a atenção para uma economia que não se preocupa com a vida e que segue seu caminho gerando excluídos e sobras (cf.EG 53), porque não podem produzir e não têm condições de consumir, por isso, não interessam mais. São considerados um peso desmedido para economia. Em resposta o Papa sugere a potencialização da solidariedade muito mais do que alguns atos esporádicos de generosidade, mas a criação de uma nova mentalidade que pense em termos de comunidade, de prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns (cf. EG 188). A travessia da pandemia fez agravar a situação de pobreza no Brasil. A pobreza não começou com a pandemia. Foi agravada por ela. A surpresa gerada pelo número de pessoas que acessaram o auxílio emergencial no início da pandemia mostrou a realidade de uma população vulnerável quanto à sobrevivência, porque não têm garantidos os meios para sobreviver: emprego e renda. Sem emprego e renda a pessoa vai imergindo em uma situação de degradação humana cada vez mais profunda. Não se pode ignorar este contexto nesses tempos de pandemia.

Neste ano o Papa escolheu a frase bíblica “Sempre tereis pobres entre vós” (Mc 14,7). Essa escolha não quer negar o compromisso com os pobres, mas quer chamar atenção para a necessidade de ir ao encontro deles, pois estão presentes na sociedade e necessitam de atenção. Ele diz que a solidariedade começa no fazer-se próximo, conhecer suas dores, dar-se conta do valor da sua vida. “Somos chamados a descobrir Cristo neles: não só emprestar-lhes a nossa voz nas suas causas, mas também ser seus amigos, a escutá-los, a compreendê-los e a acolher a misteriosa sabedoria que Deus quer comunicar através deles”. Esse é um caminho de conversão, de considerar aqueles mais necessitados não como alguém que necessita de uma esmola para se manter, mas que se viva um espírito solidário que transforma as relações injustas que existem na sociedade.

A atenção para com os pobres é compromisso de fé.  Também exige um jeito de assumir o seu enfrentamento com êxito. Neste caso temos ainda um caminho a percorrer no sentido da sabermos a melhor forma de ajudar estes irmãos e irmãs a superarem a pobreza, sobretudo diante dos novos fatores sociais e econômicos que geram pobres e excluídos.

Pe. Ari Antonio dos Reis

Seminarista Dalcinei Sacheti

 

 

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