Testemunhas oculares

Postado por: Dom Rodolfo Luís Weber

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            O evangelista São Lucas está nos guiando no presente ano litúrgico. Fundamenta a fé em Jesus Cristo em fatos concretos. A liturgia dominical, Lucas 1,1-4;4,14-21, apresenta as motivações pelas quais o evangelista escreve e a primeira pregação de Jesus Cristo. “Muitas pessoas já tentaram escrever a história dos acontecimentos que se realizaram entre nós, como nos foram transmitidos por aqueles que, desde o princípio, foram testemunhas oculares e ministros da palavra. Assim sendo, após fazer um estudo cuidadoso de tudo o que aconteceu desde o princípio, também eu decidi escrever de modo ordenado para ti, excelentíssimo Teófilo. Deste modo, poderás verificar a solidez dos ensinamentos que recebeste”.

            Lucas escreve que no início dos acontecimentos está Jesus Cristo. Ressalta a sua historicidade em dados e fatos. Se trata de um evento acontecido no mundo, passível de documentação testemunhal, reconstruível através de investigação e pesquisa, situado dentro de um quadro cronológico, político, econômico e geográfico bem definido. O evangelista quer deixar bem claro que Jesus Cristo não é uma ideia, um mito, apenas um humano com muitas qualidades, um líder idealizado.

            Há diferenças no modo de escrever a história na atualidade, do modo como Lucas fez. Hoje os historiadores vão em busca de escavações arqueológicas, documentos raros ou “perdidos”, busca em arquivos pessoais, públicos e bibliotecas. Lucas escreve poucos anos após os fatos acontecidos. Nesta época se escrevia menos e nem havia necessidade de fazer escavações. Hoje, em qualquer acontecimento recente, se procura ouvir testemunhas oculares.

            A fonte principal do evangelista Lucas são “as testemunhas oculares e ministros da palavra”. Testemunha ocular somente é quem presenciou os fatos. O Cardeal Gianfranco Ravasi, grande exegeta, afirma: “A história oferecida pelo Evangelho não é, portanto, reduzida a um simples e amorfo modulo historiográfico, é uma leitura pascal da realidade “Cristo”. “Testemunha”, é aquele que, de um lado, não reduz Jesus a “um fantasma” como farão, no início, os próprios discípulos (Lc 24,37), mas que também sabem penetrar o fato-Cristo além do invólucro fenomênico exterior interpelando-o com a força do Espírito e à luz das Escrituras nas suas dimensões mais profundas e misteriosas. É assim que se tornam não simplesmente testemunhas de eventos, mas “ministros da Palavra”: história e fé, Jesus e Cristo, homem e Deus não devem ser divididos por um monofisismo espiritualista ou materialista, mas reconduzido à unidade da encarnação”.  

            Escrever a história de Jesus Cristo foi um desafio único e que não se enquadra em nenhum esquema acadêmico. Escrever sobre quem era verdadeiramente humano e divino descontrói qualquer metodologia redacional. Como o próprio Lucas disse, “muitos tentaram”, mas permaneceu apenas a história escrita por Mateus, Marcos, Lucas e João. Eles conseguiram, através da própria convivência com Cristo, como testemunhas oculares, ou através de testemunhas oculares, gravar em linguagem humana, quem é Jesus Cristo. Captaram e relataram a humanidade de Jesus como também a sua divindade. Como disse Ravasi, não espiritualizaram Jesus Cristo e nem o reduziram a um mortal humano.

            Todo esforço de Lucas tinha por objetivo ajudar Teófilo, o “amigo de Deus”, a “verificar a solidez dos ensinamentos” que o tornaram amigo de Deus. A fé dos “teófilos” tem uma sólida e inegável base histórica.

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