Vivenciamos tempos de família líquida?

Postado por: Janaína Portella

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No mundo pós-moderno o que garante relacionamentos duradouros e de sucesso? Qual a sua atenção aos membros de sua família? Você dedica tempo de diálogo e afeto sem deixar que o celular afete esses momentos? Qual a última vez que você fez um passeio sem realizar compras desnecessárias? E, sem fazer milhares de fotos para postar em suas redes sociais?

Vivemos um tempo denominado de mundo líquido, em que observamos que é bem diferente dos tempos de antigamente, em que os valores e compromissos se dissolvem facilmente, conferindo lugar à informação imediata, às amizades rasas, aos relacionamentos efêmeros, em que num clique ocorrem as conexões e desconexões familiares.

Na obra Modernidade Líquida, Zygmunt Bauman informa que vivemos em um mundo de consumo e solidão, onde estamos “todos em uma solidão e uma multidão ao mesmo tempo”. Verdadeiramente, quem são seus “amigos do Facebook” e seus “seguidores do Instagram”? Quem realmente importa?

Não há como escapar da realidade de uma sociedade líquida, digital e acelerada como a que estamos vivenciando. Mas, como resgatar e fortalecer os laços afetivos junto àqueles que realmente importam?

Dedico essa reflexão, especialmente, pela constatação cada vez mais próxima de casos de abandonos afetivos de pais e familiares que, por razões desconhecidas, “esquecem” do que realmente importa.  Bem informa Bauman: “Vivemos tempos líquidos, nada hoje é para durar”.

Combatemos o patriarcalismo, fundado na estrutural relação de poder, e buscamos, com empenho, defender no Direito das Famílias, que a família pós-moderna, constituída de formas plúrimas, deve ter sua proteção perante o Estado com fundamento na dignidade humana, elevando-se os vínculos afetivos no ordenamento jurídico à valores jurídicos capazes de desfazer vínculos biológicos, conferindo proteção às novas realidades que se apresentam.

Mas, naturalmente, uma inquietação ocorre: podemos aceitar esse conceito de ‘família líquida”?  Como defender o direito ao afeto se considerarmos a cultura dos relacionamentos frágeis, rasos e, tendo como natural as posturas de abandono afetivo, pois, como muito se ouve: não há como obrigar alguém a “dar amor”, e assim, filhos crescem envoltos pelo desdém, restando-lhes a busca pela indenização monetária frente à indiferença sofrida.

Como fortalecer os laços afetivos com àqueles que realmente importam? Fica aqui a provocação para um refletir além de uma sociedade líquida e imediatista.


       Janaína Leite Portella

Advogada, Professora universitária,

                                  Empresária e Vereadora
      janaina@leiteportellaadvogados.com.br

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