Um grande passo para Igreja

Postado por: Ari Antônio dos Reis

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Já temos lido várias reflexões sobre o Sínodo proposto pelo Papa Francisco que tem como Tema “por uma Igreja Sinodal”. O processo não trata de um tema específico, mas motiva a Igreja toda a refletir a dimensão sinodal da sua missão. Este desafio foi acolhido com entusiasmo por diferentes setores eclesiais e chamou a atenção da sociedade. Alguns grupos contrários à proposta sinodal posicionam-se contra a partir de uma leitura equivocada de Igreja.  A iniciativa do Papa Francisco convida a um mergulho na essência da vida eclesial. A sinodalidade expressa a natureza da Igreja, a sua forma, o seu estilo, a sua missão. E por isso falamos de Igreja sinodal, evitando, no entanto, considerar que seja um título entre outros, um modo de pensá-la que prevê alternativas (Francisco). A Igreja de Jesus Cristo, fiel ao compromisso evangelizador, porque existe para evangelizar, propõe-se à leitura dos sinais dos tempos para ser eficaz no seu propósito primeiro. É um ato de coragem e abertura ao sopro do Espírito Santo.

A sinodalidade é a experiência cotidiana da essência da Igreja desde as suas origens. Em 1965, já em vias do encerramento do Concílio Vaticano II, o Papa Paulo VI propôs a instituição do Sínodo dos Bispos. Estava olhando para frente e para traz. Olhando para frente via a possiblidade da Igreja assumir com mais vigor e entusiasmo as deliberações conciliares, um caminho inequívoco de aggionarmento eclesial para responder aos desafios da evangelização em uma sociedade que se transformava. O Concílio Vaticano II não é um projeto a ser executado pelo Papa, os padres conciliares, os bispos e seus sucessores. É o projeto de toda a Igreja, de todo o corpo dos batizados, chamados a serem membros do povo de Deus, sal da terra e luz do mundo (Mt 5,13-16). A iniciativa sinodal viabilizaria esse compromisso comum dos batizados, dispostos a caminharem juntos em vista do anúncio do evangelho. 

Olhando para traz Paulo VI retoma uma característica que marcou a história da Igreja. O caminhar em comum se dava a partir do diálogo, da decisão tomada conjuntamente e sem a imposição de um ou outro grupo. Decisão assumida em conjunto, execução assumida em conjunto. A proposição do Sínodo dos Bispos reforça a intuição da Igreja de caminhar unida mesmo com tensões e conflitos próprios de coletivos humanos. Não se ignora que existam pois emergem da diversidade de pensamentos e visões. Todavia, coloca-se algo acima de tudo e compreendida como prioritária, a necessidade de se caminhar juntos, unidos. É mais que uma via metodológica. É uma espiritualidade que dá um novo dinamismo à missão eclesial. Segundo o Papa Francisco somos chamados à unidade, à comunhão, à fraternidade, que nasce de nos sentirmos abraçados pelo único amor de Deus.

A proposição do Papa Francisco cinquenta anos após a decisão de Paulo VI é um revigoramento muito significativo. É um grande passo para a Igreja pela própria proposição e pelo seu alcance. Para os que temem escutar e abrir-se à participação, diga-se “confiem, na força do Espírito Santo”. Jesus afirmava isso ao discipulado (Jo 14,26) e afirma igualmente a sua Igreja. O desafio de darmos razão das nossas esperanças (1 Pd 3,15) convida acolher as diferentes proposições que igualmente sustentam a esperança humana. Acontecerá retomando alguns princípios muito caros à vida eclesial: comunhão participação e missão, mistério da Igreja fundada na trindade aberto ao diálogo com o ser humano.

As questões propostas convidam o agente sinodal a escutar e observar e provocam o interlocutor a se expressar com liberdade. Acontece a interação promissora porque cria laços de gratuidade e alteridade. É uma forma de participação que abre para outras possibilidades porque caminhos surgem e intuições pastorais emergem para a Igreja e também para os interlocutores. As orientações sinodais são precisas ao afirmar que o objetivo é escuta e não criar processos de debate. Não é hora de autodefesa ou apologia. É momento de escutar.  

 Muitos agentes de pastoral estão contribuindo para operacionalizar este primeiro momento do Sínodo que é a escuta. As informações que chegam, ainda que parciais, já indicam a grandeza do processo. Não é uma novidade. Muitos processos de planejamento das dioceses paróquias e comunidade dedicam um longo tempo a auscultar o povo de Deus e a realidade. Esta sensibilidade metodológica foi e continua sendo muito importante. O sínodo a potencializará alargando o horizonte da escuta.

A disponibilidade de caminhar junto, assumida pela Igreja, acolhe a intenção de ouvir sugestões que poderiam ajudar nesta intenção. Está sendo dado um grande passo rumo ao mandado deixado por Jesus, evangelizar. E, sendo assim, as condições para executar esse mandado demarcarão profundamente a identidade da Igreja.

                                              

Pe. Ari Antonio dos Reis

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