Jovem continua migrando do campo para a cidade

Postado por: João Altair da Silva

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Durante meus 11, 12, 13 e 14 anos, lá em Mato Castelhano, eu saía de casa às 6h, com pasta, guarda-chuvas, vianda, tênis em um saco porque andava de botas de borracha  por três quilômetros até chegar na BR-285.  Lá no asfalto, como chamávamos,  deixava as botas em um galpão de um vizinho solidário, calçava o tênis, embarcava no ônibus intermunicipal que vinha de Vacaria e em 15 minutos estava na escola, na sede do distrito.  Esperava quase uma hora até iniciar as aulas. Essa rotina ocorria três dias por semana. As aulas eram o dia todo.

Mas, isso de 1981 a 1984.  Já se foram mais de 30 anos e sempre pensei que era coisa do passado  amargo.  Eis que na semana passada, juntamente com o colega Gringo do Povo aqui da Rádio Planalto fomos jantar na residência de um agricultor em São Valentim, interior de Passo Fundo.    Perguntei para a filha dele de 16 anos, onde estudava?  Me respondeu que em Passo Fundo, numa escola da grande São Cristóvão.  Que horas você sai de casa?  Me respondeu: às 6h.  Retruquei, mas como assim, são apenas 12km daqui até à cidade.  “É que o mesmo ônibus precisa voltar para levar as crianças às 7h para as escolas delas”, me respondeu.  Insisti,  mas e que horas vocês chegam na escola?  Me respondeu que por volta das 6:50h, e as aulas iniciam às 7:50.  Ou seja, 17 alunos, das localidades de São Valentim, Vila Rosso, São José,  interior de Passo Fundo,  permanecem uma hora ao relento na frente da escola, até iniciar as aulas.

Ouvindo hoje uma palestra no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Passo Fundo, no Dia do Agricultor,  sobre como manter o jovem no campo,  fiquei imaginando,  como pode uma menina querer permanecer na roça tendo  que ficar numa parada de ônibus, na beira de um estradão, sob o breu da noite (pois o dia  clareia depois das 7h agora no inverno) e depois esperar mais uma hora em frente a escola na cidade  para iniciar seu dia letivo?   Lembro que o  pai dela é um outro herói.  Além de agricultor mantém uma olaria (fábrica de tijolos).  Como a internet não funciona na casa, quando faz uma venda, pega o carro e vem até a cidade para emitir a nota fiscal eletrônica, depois retorna para liberar o caminhão.  Com essa estrutura  oferecida aos colonos querem os governos que seus filhos lá permaneçam!!!

                  


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