Mais um Enart

Postado por: Dilerman Zanchet

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O meio tradicionalista do Rio Grande do Sul vive mais um Enart (Encontro de Arte e Tradição), o maior evento do gênero na América Latina. Ele mexe com todas as entidades tradicionalistas. Movimenta mais de 2.500 concorrentes em um final de semana de muitas competições artísticas criadas para desenvolver a cultura e a tradição de um povo: os Gaúchos.

O parque municipal de Santa Cruz do sul, cidade que há mais de 10 anos sedia o evento, está pronto. É um dos maiores e mais estruturados parques do Rio Grande do Sul e, por isso, comporta mais de duas mil pessoas acampadas e de todas as formas: nos ônibus, em caminhões, camionetes, em pequenas barracas, em barracões ou ranchos feitos de última hora. A rede hoteleira fica faceira por demais: as reservas chegam a ser feitas um ano antes. E quem quer, paga o preço que querem. Quem não quer que vá para o acampamento.  Nos últimos anos, poucas melhorias na infraestrutura do parque, o que exige um esforço a mais para os milhares de acampados. Chuveiros e banheiros insuficientes, centenas de pessoas em filas para banho, praça de alimentação com preços exagerados, longas filas para o ginásio principal, esgoto a céu aberto a partir do segundo dia (o esgoto cloacal do parque não dá vazão) e por aí afora. E o pessoal vai mesmo. Nós vamos assim mesmo.

O Enart consegue reunir os melhores dos melhores. E daí sai os campeões. É um ano de competição interna, para ver quem é quem dentro do CTG ou do GTF. Segue para uma regional, onde se classificam oito em cada modalidade, a disputar a inter regional. Saem mais oito que vão à Santa Cruz. E aí o bixo pega. Um passo em falso, um “falsete” na letra, uma frase esquecida num verso, um segundo de bobeira na harmonia, e o trabalho do ano todo foi para o ralo. Por isso o Enart é envolvente.

As entidades do RS, salvo raríssimas exceções, são pobres. Trabalham o ano todo pagando uma exorbitante anuidade ao MTG para que continuem filiadas, acatando decisões e dizendo Amém. Em Santa Cruz são centenas de vagas em hotéis para toda a grande comitiva do MTG. E restaurante, combustível, etc. Todos pagos com o suor dos colaboradores dos filiados durante o ano. A tal “mordomia de trabalho”.  Então os grupos de danças ou competidores individuais se empenham em fazer pedágios, galeto com massa, cachorro quente, rifa, etc. Isso para reduzir um pouco a despesa própria de vestidos, botas, sapatilhas, adereços, etc. E, claro, do cenário que vai servir de cartão de apresentação do grupo. E foram para Santa Cruz. Dança no sábado, mas na quinta já estão concentrados, pretendendo dar o melhor de si. E apresentam-se na semifinal. São 40 grupos em cada categoria, disputando 20 vagas. Matar ou morrer. Os individuais se esforçam, concentram, repassam os últimos detalhes.

Chega o sábado à noite. Encerram-se as apresentações. Meia noite. Uma hora da manha. E os grupos reunidos, fazendo uma corrente de energia. E os individuais com o coração na boca. Será que vai dar?  Será que classificamos para o domingo? Duas horas. E nada! Lá pelas três da manhã o microfone anuncia os classificados. Gritos de alegria, abraços. Lágrimas de felicidade. Estamos no domingo. Classificamos. Celular à mão, ligação para casa. E o pessoal de casa esperando a notícia boa. Lágrimas de tristeza. Não foi desta vez. Puts. Resta ficar até a meia tarde de domingo, levantar acampamento e retornar. Reiniciar amanhã o trabalho para o ano que vem.

Enart é isso.

E no ginásio, literalmente lotado, mais de 5 mil pessoas se acotovelando para ver os melhores, já na chamada “finaleira”. Comissão avaliadora a postos e reiniciam as danças. “O Anú é pass’o preto, ai, o Anú é pass’o preto, ai, Passarinho de verão, Ai, passarinho de verão, ai”... Tremores, desmaios, adrenalina a mil. Emoção. “Que que achou? Bah, foram bem... estão entre os melhores”... Expectativa. Haja coração.

E no final da tarde, chamam os grupos para a tradicional dança de integração. Os concursos individuais já encerraram. O pessoal da secretaria trabalha incessantemente. Está na hora de mais um resultado. Vamos lá. E a adrenalina sobe ainda mais.

Discursos. O último foi em tom de campanha para reeleição. Não deu. E o locutor anuncia: Vamos aos vencedores.... gritos.... choro, alegria, tristeza. Uma mistura de sentimentos. Bons para os bem colocados, ruins para quem não ficou tão bem assim.

Na verdade, todos venceram, pois valorizaram ainda mais a arte e a tradição de um povo que não se dobra ás dificuldades. Um povo guerreiro, que valoriza a sua cultura. Que se orgulha de seu chão. O povo gaúcho, tchê!

Este é o Enart.


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