A cultura do Rio Grande pede ajuda

Postado por: Dilerman Zanchet

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Quando veio da campanha, trouxe as riquezas que tinha, dois meninos e a companheira, veio junto uma sobrinha/ Um poncho velho de napa, um chapéu preto surrado, alugou um rancho na vila, pagou dois mês adiantado/ Não demorou pra que as contas atropelasse este homem, a água, luz e o bolicho, passagem cara do bonde...”

Acompanho, quando possível, alguns festivais musicais que se destacam no Rio Grande do Sul. Confesso que fico com sentimentos variados, entre mistos de indignação e de compaixão.

Indignação pelo pouco valor que nós, rio-grandenses, damos às coisas do nosso pago. Não existe, em nenhum outro estado deste país, letra e música que cantem a tradição como no Rio Grande do Sul. Não existem músicos, intérpretes, letristas ou compositores com tamanha qualidade no Brasil, tão bons ou iguais aos nossos. Afora o detalhe de sermos tachados de bairristas e de que nossa música não toca em rádios ou bailes do centro do país, somos a terra onde mais se cultua a tradição e que mais conteúdos têm nas canções.

No entanto, os festivais nativistas - verdadeiras escolas musicais da tradição rio-grandense, não têm a atenção merecida, seja por algumas das prefeituras nas cidades onde se realizam, seja pela Secretaria de Cultura do Estado e, tampouco, pelo disputado (e risível) Ministério da Cultura.

Algumas prefeituras entendem que oferecendo a infraestrutura para o evento, com a limpeza do local ou cedência do ginásio, sua participação já está de bom tamanho. Algumas vão além e tomam para si a organização do evento como um todo. Então aos participantes a certeza de que será realizado um grande evento. Outras, de acordo com o partido político do prefeito, fazem vistas grossas e algumas até tiram o festival do calendário de eventos.

No Rio Grande tivemos memoráveis festivais, como a precursora Califórnia da Canção Nativa, o Musicanto, a Coxilha Nativista e outros, que se perderam no tempo e nas gavetas dos captadores de recursos. Outros insistem em oferecer boas obras, como o Cante uma Canção em Vacaria, o Carijo da Canção, o Rio Grande Canta o Cooperativismo (com uma linha definida e um grande patrocínio), a Seara da Canção e outros de menor influência, mas nem por isso de baixa qualidade, como em São João da Urtiga, Esmeralda e São Francisco de Paula.

Compaixão, claro, pelos baluartes que ainda vivem nos festivais a essência do nativismo mais puro, tal qual diamante e a ser lapidado. São pessoas que, de bota e bombachas (ou vestidas de prendas), dão sua alma e seu conhecimento em prol da paixão pela nossa música.

Conversando com Daniel Busch, colega de rádio e organizador do Chamamento do Pampa, cuja última edição aconteceu em ....., com o Ibaldo Pedra (um dos maiores conhecedores dos festivais do RS), passei a perceber que, embora com valores baixos para tal investimento, os artistas de nossa cultura acreditam, escrevem e se envolvem. De um único festival, saem centenas de belas letras, submetidas a duas ou mais triagens, que passam a configurar no rol das que serão apresentadas. Somente das que não concorrem neste evento, se formariam vários outros.

O porém é que, para incentivar a criação e o renascimento de grandes festivais nativistas, bem como o aporte financeiro aos que já existem, valorizando a cultura rio-grandense, precisamos de pessoas com visão em órgãos públicos preparados. Também se faz necessário o eficaz convencimento de indústrias e estabelecimentos comerciais a fim de que patrocinem tais eventos. As Leis de incentivo que temos atualmente espantam empresários, em sua maioria. Alguns entendem o real significado do projeto. Outros pensam nele como forma de driblar o fisco, infelizmente.

Com mais forma do poder público, nos mais variados níveis, com pessoas capacitadas na organização e coordenação dos eventos, com patrocinadores fortes e comprometidos com a qualidade da música do Rio Grande, poderemos ter, num futuro bem próximo, teremos o retorno dos grandes eventos e a criação de outros tantos, para deliciarmo-nos, aos finais das tardes, com um bem cevado mate e a mais autêntica música destes pagos.

E, como finaliza a letra da música O Peregrino, de Volmir Coelho e Othelo Caiaffo (apresentada na segunda noite da 19ª Seara da Canção de Carazinho), que inicia este texto, os homens serão os responsáveis pela escrita da história da nossa música:De acabresto pelo tempo segue este homem lutando, contra os fantasmas do asfalto, que lhe veem peregrinando com a cruz maior que a de tantos, que têm tudo e estão chorando”.


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