RABISCOS SEMANAIS: “Você mora sozinho aqui?”

 14/06/2022 - 11:24hrs
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 “Conhece-te a ti mesmo”, compõe um expressivo aforismo da filosofia grega antiga. O Templo de Apolo, em Delfos, guarda a escrita (pronau). Ao longo da história do conhecimento e do pensar filosófico encontram-se registros acerca desta máxima délfica, pois, inúmeros filósofos construíram proposições reflexivas que por ela perpassam, a saber, Platão, Sócrates, Thomas Hobbes, etc. Em relação aos marcos históricos do Antigo Egito, o Templo de Luxor (antiga capital egípcia, Tebas), às margens do Rio Nilo, guarda o provérbio: “Homem, conhece a ti mesmo, assim conhecerá os deuses”.

A narrativa bíblica do segundo testamento expressa, através do evangelista João, que Jesus Cristo, à luz da fé, traduz um novo significado à reflexão: “ninguém chega ao Pai, a não ser por mim. Se vocês chegarem a me conhecer, conhecerão também o meu Pai. Desde agora vocês o estão conhecendo e vendo” (Jo 14,6-7). Mais! “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará. Eu e meu Pai viremos e faremos nele nossa morada” (Jo 14,23).

A constituição do ser humano enquanto sujeito consciente de sua vida e relação, consigo mesmo, com outros(as) e com o transcendente perpassa, então, dentre outras importantes questões, pelo cultivo do autocuidado. E, para cuidar-se, aflora-se extremamente necessário conhecer-se. Saber quais são suas habilidades, potenciais, dons, bem como, suas limitações, fraquezas e carestias. Haverá um correto caminho à percorrer neste construto?

John Henry Newman, canonizado em 13 de outubro de 2019 pelo Papa Francisco, dizia: “procurei ouvir a voz de Deus e subi à torre mais alta, mas Deus declarou: ‘vá para baixo novamente – Eu habito no meio do povo’”. Há, sem dúvida, sugestivos e alternativos caminhos e modos de auto buscar-se e conhecer-se para que assim sejam profícuas as relações de alteridade social e transcendente. Praticar esportes, leituras, musicalidade, orações, são meios.

Questionado, outrora, por uma criança, sobre o fato de residir sem a companhia de outras pessoas – “você mora sozinho aqui?” – fulgura, hoje, virtuosa abertura à janela dialógica referente ao estar sozinho, sem no entanto, ser solitário. O autoconhecimento exige-nos o nobre e terno, árduo e profundo, exercício humano e espiritual de desfrutar a própria companhia em expressivos espaços de tempo. Ter-se-á que, neste percurso, aprender diuturnamente escutar-se, ao falar e ao calar, encarar virtudes, feridas, cicatrizes e medos. Abraçar o próprio existir com suas belezas e despudores. Concluo, por hora, parafraseando São Paulo Apóstolo: “agora conheço em parte, mas depois conhecerei tal como sou conhecido. Agora permanecem a fé, a esperança e o amor, essas três coisas. A maior delas é o amor!” (1Cor 13,12-13).

 

Padre Leandro de Mello - @padreleojuventude. Passo Fundo, 14 06 2022.

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