RABISCOS SEMANAIS: Rosto de Emanuel!

Postado por: Leandro de Mello

Compartilhe
Gestar vida compreende uma opção ímpar à humanização! O nascer compõe processos de discernimento, incertezas, planejamento, organização, articulações e sonhos. A ciência médica corrobora, a saber, por formas múltiplas hodiernamente. No caminho gestacional faz-se ultrassom obstétrico para acompanhar o desenvolvimento da criança e a saúde da mulher; posteriormente, há outros exames específicos para cada período da gravidez, como o ultrassom morfológico e o pré-natal. E, pois, quais serão as características da criança ao nascer? Como será seu rosto, cor dos olhos, etc.? 

Cada nascimento constrói-se repleto de mistério, espera, transformações e silêncios. Na caminhada cristã, vive-se a experiência histórica e transcendente do nascer do Deus Menino, Jesus. A obstetrícia divina realizou-se, a priori, no coração da humanidade pelo discernimento da jovem Maria, em Nazaré, quando acolhe em seu viver o projeto amoroso de Deus na companhia de José (Mt 1,1-25; Lc 2,1-7). O itinerário cristão peregrina, então, pela construção de alteridade social, político econômica, ambiental, cultural e religiosa marcado por significativos sinais e símbolos que, à luz da fé, no silêncio cotidiano da vida “ajuda a tornar-se íntimo de Deus” cada sujeito de boa vontade. 

Praças, lares, igrejas e outros espaços de convívio social são adornados à espera do esperançar; ou, talvez, do lucro? Na morfologia societária ultrassons revelam múltiplos olhares, tons, cores, idiomas a aclarar o rosto humano do “Emanuel, que traduzido significa ‘Deus conosco’” (Mt 1,23). Papa Francisco recorda-nos que “a árvore e o presépio são dois símbolos que continuam a fascinar jovens e adultos. A árvore, com suas luzes, recorda-nos Jesus que vem iluminar as trevas e a nossa existência de pecadores e sofredores neste mundo. Como as árvores, também os homens precisam de raízes, pois só quem está enraizado em boa terra permanece firme, cresce, amadurece e resiste às intempéries. É importante valorizar as raízes da vida e da nossa fé”.

Francisco de Assis, em 1223, fora o idealizador do primeiro presépio, em Greccio, na Itália, desejoso de reviver àquela experiência compartida por José e Maria, com Jesus, na singeleza de sua pobreza genuína, enriquecida pela utopia concreta do Reino de Deus, mesclada à manjedoura, aos animais, aos presentes ofertados pelos magos orientais que, ao ver a estrela, ficaram repletos de extraordinária alegria, entraram, abriram seus cofres e, ajoelhados, ofertaram ouro, incenso e mirra (Mt 2,1-12). 

À historicidade da comunidade de seguidores(as) do Caminho, o pré-natal do cristianismo realizara-se naquele “hospital de campanha”, em Belém, aonde Deus trouxe à vida a revelação de seu “útero/ventre” amoroso capaz de compartilhar conosco sua humanidade, em uma criança frágil, indefesa. Hoje, o presépio – familiar e simples – exorta-nos rezar e refletir contrastes sociais, políticos, econômicos e culturais que, gradativamente, absorvem e desfiguram o encantamento da vida, verdadeira riqueza do Natal. Neste mistério fala-nos o transcendente, basta escutar! 

À sensibilidade morfológica musical sugere-se que “o rosto de Deus é jovem também e o sonho mais lindo é ele quem tem. Deus não envelhece, tampouco morreu. Continua vivo no povo que é seu. Se a juventude viesse a faltar o rosto de Deus iria mudar” (Jorge Trevisol, O mesmo rosto). Ora, “para celebrar o Natal, devemos redescobrir a surpresa e o espanto da pequenez de Deus no Presépio e na pobreza de um estábulo e tornar-nos pequeninos”, diz Papa Francisco. 

Eis, portanto, o advento, um tempo oportuno de preparação para o nascimento de Jesus, também em nós, que propicia-nos caminhar em processual desenvolvimento humano e divino, pois, conduz-nos à compreensão de um projeto de vida, batizado “Civilização do Amor” que realizar-se-á na alteridade comunitária do lar, da família, da sociedade. Para tanto ter-se-á que, com políticas públicas, articular condições dignas ao bem viver social, às crianças, aos jovens, aos adultos e anciãos, uma vez que, desde outrora, há insurgência de novos Herodes a “procura de informações exatas sobre o menino” (Mt 2,8) para deslustrar-lhe o direito à luz da vida e ao bem comum! 

Padre Leandro de Mello @padreleojuventude. Passo Fundo, 06 12 2022.

Leia Também Bem-aventurados os mansos Coragem A Vida e Suas Oportunidades Segui-me