Iniciamos na quarta-feira de cinzas o Tempo Litúrgico da Quaresma, marcado pelo apelo à conversão e à reconciliação com o Senhor. Os exercícios quaresmais propostos não têm a pretensão da visibilidade exterior, mas verdadeiramente aprofundar uma espiritualidade transformadora e voltada a acolher o amor e a graça de Deus. Como afirma o profeta Joel, é a atitude de voltar-se ao Senhor sabendo que “Ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia (Jl 2,14). Tem-se esta certeza porque o Senhor é “aquele se se enche de zelo por sua terra e perdoa o seu povo” (Jl 2,18). Esta certeza que está no horizonte da pessoa de fé animando e provocando a caminhada quaresmal. Por isso é uma caminhada de graça e sobriedade, jamais de tristeza e angústia.
Como afirmado anteriormente, neste tempo se potencializa os exercícios espirituais, contudo como forma de amadurecimento na experiência de fé. Jesus, segundo o Evangelho de Mateus (Mt 6,1-6.16-18), motiva a fazer a experiência de encontro com o necessitado pela esmola; com o Criador através da oração; mediante o esforço pessoal, pelo jejum. São práticas voltadas ao aprofundamento da experiência de Deus. Superam o ato externo desprovido da intencionalidade de conversão, mas mergulham a pessoa em um caminho de verdadeiro sentido de conversão, porque ali está o mistério do peregrinar humano onde ele faz a experiência de Deus. Como afirma o texto de Mateus: “Deus vê o escondido”. O processo de conversão é constante na vida humana. Devido a própria condição humana nunca poder-se-á abster dessa graça. É dom divino.
E Deus estará sempre esperando para acolher se reconciliar com seus filhos e filhas. Compreende-se também que conversão implica voltar-se para os caminhos de Deus em vista da salvação, como sugere o canto: “volta meu povo ao teu Senhor e exultará teu coração. Ele será teu condutor, tua esperança e salvação”. Implica encontrar e seguir o caminho do Senhor e manter a fidelidade encontrando sentido da vida neste processo. A proximidade não é algo forçado. É opção assumida livremente.
Jesus aponta este caminho. Ele mesmo, depois do batismo, foi ao deserto e por quarenta dias ficou em oração e meditação (Mt 4,1-11), quando foi tentado a assumir outra proposta e outros caminhos, diferentes dos traçados pelo Pai, o que significaria uma grande ruptura com o seu projeto. Manteve-se fiel e resistiu com firmeza.
Diante da tentação da abundância sem esforço optou pela partilha, uma construção coletiva e verdadeiramente transformadora afeita à Palavra (vontade) do Pai (Mt 4,4). Frente à tentação do prestígio, quando abusaria do fato de ser o enviado, o Filho de Deus, recorda o sentido da sua missão e que não deveria tentar aquele que o havia enviado (Mt 4,7). Diante da tentação do poder, usurpado ou disputado a todo custo, valendo por si só, Jesus lembra que poder é servir e colocar-se a disposição dos últimos, um caminho exigente, todavia aquele para o qual se preparou. Este era o seu culto, (Mt 4,10), a sua forma de agradar a Deus.
Entramos na caminhada quaresmal. Como escrito é um tempo de graça pela oportunidade de nos voltarmos de forma mais intensa ao Senhor e acolhermos a sua misericórdia. Superemos a ideia de um tempo de tristeza e limitações. Todo o esforço feito é em nome de uma causa maior. Seja verdadeiramente um tempo de graça.
Pe. Ari Antonio dos Reis











