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Histórias gravadas na pele

Através das civilizações, maneiras de identificação e pertencimento a determinado grupo sempre foram presentes e utilizadas como mecanismo de inclusão social. Com o passar do tempo e a evolução da espécie, o homem moderno passou a utilizar os desenhos na pele como forma de se expressar, defender alguma ideologia ou homenagear com as tatuagens uma situação ou pessoa especial.

”As evidências mais antigas da utilização de marcas no corpo datam de 2.500 a.C. Seus primeiros registros remetem a tribos primitivas cujos membros a utilizavam para expressar sua filiação a um clã ou a uma tribo. Posteriormente, marinheiros europeus disseminaram a prática pelo continente, apropriada inicialmente por marujos, bandidos e prostitutas, representantes de grupos socialmente marginalizados que ajudaram a atribuir à tatuagem o estigma que possui até os dias de hoje”, contextualiza a professora da Escola de Psicologia da IMED, Susana König Luz.

Mas por que os indivíduos resolveram usar a tatuagem como forma de expressão? Susana explica: “A tatuagem é uma prática milenar e em todas as épocas e lugares era comum usar o corpo como forma de linguagem.  Em algumas tribos a tatuagem significava a passagem da infância para a vida adulta. Tatuavam as mulheres casadas para diferenciar das moças virgens. Nas lutas, os corpos eram pintados demonstrando coragem. Não se pode afirmar que existam personalidades mais adeptas ao uso de tatuagens e sim, formas de identificação com grupos e pares. A tatuagem já esteve muito ligada ao rock, a rebeldia, e hoje “passeia” por várias tribos”, destaca.

Para entender como esse fenômeno ganha cada vez mais espaço entre as gerações e nunca sai de moda, o tatuador e acadêmico da Escola de Administração da IMED, Carlos Alexandro da Silva, ou apenas “Carlos”, como é conhecido, conta um pouco sobre sua experiência com a tatuagem e como vê os desenhos e histórias que grava na pele das pessoas. “Me interessei pela tatuagem quando eu tinha 15 anos. Comecei porque eu já tinha facilidade e gosto por desenho. Fui convidado por um tatuador para trabalhar em um estúdio e o que sempre me chamou a atenção foram as pessoas diferentes que apareciam por lá. Algumas pessoas que seguiam alguma ideologia chegavam e queriam chamar a atenção. Cada um tinha um estilo e encontrava na tatuagem uma forma de liberdade para se expressar, e isso é incrível. Na prática, eu sempre achei interessante o fato de a tatuagem e o desenho caminharem juntos, transformando isso em uma arte totalmente livre e que traz muitas possibilidades”, conta.

Carlos já fez inúmeros desenhos diferentes e já tatuou até a sola de um pé, mas para ele, nenhum desenho se classifica como simples ou inusitado. Por trás de tudo sempre há uma história que deve ser respeitada: “Tatuagem inusitada para mim não existe, porque cada pessoa dá um significado para ela. Seja como formas de homenagem, como formas de expressar algum estilo de vida, ou até expressar um objetivo. Cada pessoa que entra no estúdio é atendida de uma forma diferenciada, porque cada pessoa é única e particular em sua personalidade. Cada um chega aqui procurando uma coisa, nem todos procuram a tatuagem em si. Muitos procuram uma maneira de se expressar, então atendemos cada um de uma maneira diferenciada, proporcionando aquilo que ela está procurando. Nem sempre a tua aparência reflete o que realmente é tua personalidade. Então, trabalhamos muito com formas diferentes de fazer um determinado desenho na pele da pessoa, mas sempre respeitando o que se encaixe na personalidade de cada um”, destaca.

Mesmo com a evolução das mentes e cultura da sociedade moderna, ainda hoje nos deparamos muito com o preconceito de quem possui tatuagem e de quem tem essa arte como profissão. “Quando comecei a tatuar, existia muito preconceito com quem trabalhava e com quem tinha tatuagem. Para mim foi bem complicado. Aonde eu ia, até para preencher formulários, somos “cadastrados” como empresários, e não como tatuadores, pois a profissão não é reconhecida. Mesmo quando há a opção de listar que você é tatuador as pessoas geralmente perguntam: ‘Mas tu é só tatuador, ou faz mais alguma coisa? Tu vive disso?’. Hoje, já conquistei um espaço e sou reconhecido pelo meu trabalho. Até por eu estar inserido na faculdade, tenho tido muito mais aceitação no meio acadêmico. Algumas pessoas tem a visão de que o tatuador é uma pessoa que desenha, mas é ignorante: ele não sabe fazer mais nada, é uma pessoa totalmente diferente das outras. Assim, consegui mostrar que temos que ter o mínimo de instrução. Já fiz cursos fora do Brasil na área de desenho (Panamá, México, e outros países da América Latina), faço aula de inglês para acompanhar os cursos no exterior. No caso da administração, preciso saber gerir meu negócio, as finanças, os funcionários, para manter uma qualidade, tanto na execução da tatuagem como no atendimento ao público, para fazer meu empreendimento dar certo e conseguir investir no negócio. Me aperfeiçoar cada vez mais e buscar conhecimento na área.”

Susana destaca que ainda hoje, isso pode interferir na vida das pessoas, pois ainda há a associação do estereótipo do indivíduo tatuado a uma imagem negativa. “Apesar de, nos tempos atuais, a tatuagem ser bem aceita, muitas vezes ainda é vista com preconceito. Por este motivo, algumas pessoas optam por tatuar-se em lugares escondidos, menos visíveis. ‘Em São Paulo, quando tirei o visto americano, estava um rapaz na nossa frente na fila. O visto lhe foi negado por que tinha uma tatuagem no ombro com letras árabes’. O menino disse que achou bonito, nem sabia que isso o impediria de entrar nos Estados Unidos. Quanto a oportunidade de emprego, vai depender muito do perfil da empresa e do lugar do corpo em que a pessoa tem a tatuagem. Empresas ligadas a moda, publicidade e turismo são as que aceitam com mais naturalidade. Tatuar o rosto, o pescoço, as mãos, pode trazer prejuízos dependendo do cargo que a pessoa vai exercer”, alerta a docente.

O tatuador também relata que a situação está mais aceitável nos dias de hoje, após ter conquistado seu espaço e ser reconhecido pelo trabalho que desempenha: “Hoje em dia o pessoal recebe a gente já como profissional, de uma maneira mais carinhosa do que antigamente”, conta Carlos. Ele já tem planos de aumentar o estúdio, após ter o diploma de Administração, para posteriormente iniciar a gestão de outros tatuadores. “Quero poder ter funcionários tatuadores, trabalhando aqui e atendendo da melhor maneira meus clientes”, ressalta.

A professora Susana finaliza que, apesar de todas as dificuldades e obstáculos que a tatuagem pode vir a representar em alguns setores, a arte é uma unanimidade: “Não se pode afirmar que o indivíduo tatuado tenha um estereótipo negativo. É muito comum, mães tatuarem o nome dos filhos, e isso não gera nenhuma imagem negativa, pelo contrário. Existem tatuagens que são verdadeiras obras de arte. Quanto ao vício, não há unanimidade. Mas o que todos concordam é que o prazer da dor faz com que as pessoas façam a primeira e já pensem na segunda”.

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