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Eis o Cordeiro de Deus…

Pe. Ari Antonio dos Reis

Estamos iniciando as celebrações dos Domingos do Tempo Comum, divididos em 34 domingos. A festa do Batismo do Senhor, celebrada domingo passado, pode ser compreendida como o início da vida pública de Jesus. A partir da emersão do rio Jordão, sob o Espírito Santo e motivado pelas palavras do Pai, que afirmou que ali estava o seu Filho amado, razão do seu agrado (Mt 3,17), Jesus parte para a jornada missionária.

Os Domingos do Tempo Comum motivam as comunidades a rezarem a partir desta jornada, buscando luzes para a sua missão. São as celebrações dominicais do Mistério do Filho de Deus que sustentam a missão dos discípulos missionários que se alimentam da Palavra e da Eucaristia e se comprometem a um testemunho consequente a partir da fé professada e celebrada. O Tempo Comum sugere uma caminhada espiritual muito rica centrada na pessoa e nas ações de Jesus. Segundo José Bortolini o cotidiano da prática de Jesus é o chão de onde brota a espiritualidade do Tempo Comum. Um tempo que pode se tornar um Kairós, tempo especial de graça, pois se encontra sob a custódia do Espírito que pousou sobre Jesus na festa do seu Batismo, e que nos foi dado na solenidade de Pentecostes (cf. José Bortolini, p. 127).

O texto proposto para este final de semana, segundo Domingo do Tempo Comum (Jo 1,29-34), traz João Batista apresentando Jesus como “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. Em seguida, o profeta convida seus interlocutores à memória sobre Jesus: “aquele anunciado que passou a sua frente, porque existia antes”. Como compreender o testemunho de João Batista?

Nos parágrafos anteriores o evangelista João descreve o questionamento feito ao profeta pelos judeus enviados de Jerusalém se de fato seria ele o Messias, ao que respondeu que não era, mas que que tinha a responsabilidade de preparar a sua vinda (Jo 1,19-24). Era o seu testemunho dado.

João apresenta Jesus como “cordeiro, aparentemente uma apresentação estranha. A referência feita a Jesus como “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” sugere algumas conclusões. A primeira é uma referência ao cordeiro pascal, ligado à libertação da escravidão do Egito, cujo o sangue salvou o povo israelita (Ex 12,1-14). Jesus se apresenta à humanidade como o libertador de todos os males. Toda a atividade de Jesus explicita o viés libertador.

A segunda alusão é ao cordeiro como servo, aquele que se coloca para servir a humanidade. Também se compreende que este cordeiro tira o pecado (no singular) do mundo no sentido de que supera o grande mal do não conhecimento de Deus e de sua verdade libertadora, o que gera morte e sofrimento.  Jesus, o Verbo Encarnado (Jo 1, 14), é o próprio Deus junto à humanidade para que que ela o conheça e se salve Nele, como aludido na primeira carta de João (1Jo 1,1-3). Estas dimensões marcam toda a trajetória missionária de Jesus.

Em seguida, João Batista reitera o que tinha anunciado e que dera testemunho: “o homem que está à minha frente, porque existia antes de mim” (Jo 1,30). Novamente o Evangelista coloca nos lábios de João Batista a decisão de Deus encarnar-se em vista da salvação e que o apóstolo Paulo afirma em carta a comunidade de Filipenses: ele tinha condição divina e renunciou à condição de Deus e se fez servo tornando-se semelhante aos homens (cf. Fil 2,5-7). Tinha um propósito, a salvação da humanidade, fato descrito objetivamente ao longo do texto joanino segundo a afirmação: “Deus não enviou seu filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3,17).

Sobre a relação anunciador e anunciado vê-se que para João Batista não existe conflito algum na sua condição de precursor de Jesus. Os papéis e funções estão dados. João é o precursor, aquele com a tarefa de anunciar Jesus. O filho de Deus é o anunciado, a plenitude da revelação do amor divino. O evangelista, ao descrever este trecho responde aos questionamentos dos discípulos de João Batista sobre Jesus.

Em seguida João Batista faz alusão ao Batismo e o passo dado na pessoa de Jesus no momento do Batismo. O Batista fez uso da água até então com um caráter purificador e sanador dos pecados, tradição israelita. Ele não descreve o Batismo de Jesus como os Evangelhos Sinóticos. Ele descreve o significado.

Segundo a descrição do significado, a ação de Jesus no mundo vai se dar sob a inspiração do Espírito Santo e a anuência do Pai. Tudo o que Jesus fizer acontecerá sob a força do Espírito Santo e realizando a vontade do Pai, fato nem sempre compreendido pelos judeus e que o filho de Deus reitera nos momentos de tensão maior (Jo 6, 38; 8,18). O testemunho dado pelo profeta é reforçado pelas Palavras do Pai que confirma a missão futura do Filho, pós batismo, levada à frente sob o seu consentimento.

Possamos acolher as palavras do profeta e receber o cordeiro e sua proposta em nossas vidas. É o caminho proposto neste tempo comum.

 

Pe. Ari Antonio dos Reis

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