A missão fundamental de João Batista era preparar o caminho para Jesus realizar sua missão. A liturgia do Tempo Comum se inicia com a apresentação de Jesus: “João viu aproximar-se dele e disse: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. […] “este é quem batiza com o Espírito Santo. Eu vi e dou testemunho: Este é o Filho de Deus” (Isaías 49,3.5-6, Salmo 39, 1 Coríntios 1,1-3 e João 1,29-34). Em poucos palavras, revela a identidade e a missão de Jesus.
João afirma que Jesus Cristo, Cordeiro de Deus, tira o pecado do mundo. Fala “do pecado” no singular e não “dos pecados” no plural. O evangelista João fala 12 vezes no Evangelho desta forma. O que é pecado? De qual pecado fala? O Catecismo da Igreja Católica responde assim: “Para tentarmos compreender o que é o pecado, é preciso antes de tudo reconhecer a ligação profunda do homem com Deus, pois fora desta relação o mal do pecado não é desmascarado na sua verdadeira identidade de recusa e de oposição face a Deus, embora continue a pesar sobre a vida do homem e sobre a história” (n.386).
Portanto, o pecado não pode ser reduzido à infração de um código de ética. No contexto das relações entre Deus e o homem a desobediência da Lei e a transgressão dos mandamentos não é um dos tantos pecados possíveis, mas é o pecado no estado puro, que une todas as violações. A transgressão é uma livre decisão, mas errada com a qual o homem se põe fora da lei divina e, no mesmo instante, fecha-se sobre si mesmo. “Somente à luz do desígnio de Deus sobre o homem compreende-se que o pecado é um abuso da liberdade que Deus dá às pessoas criadas para que possam amá-lo e amar-se mutuamente” (N. 387). Nisso está a origem do mal, mas Deus na sua misericórdia não abandona o homem. Inicia uma permanente busca do pecador que chega ao momento culminante em Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus.
Todo pecado é uma desobediência a Deus e uma falta de confiança na sua bondade. O homem prefere a si mesmo, fecha-se a Deus e o menospreza. Esta escolha tem consequências dramáticas em todas as áreas da vida. A primeira experiência é a desintegração da pessoa, isto é a pessoa procura compreender a sua identidade a partir de si mesma. Somos seres relacionais, dependemos uns dos outros, começando pela própria definição da identidade. O pecado torna a pessoa um ser passional, um ser que se move pelas paixões que são movimentos irracionais do desejo, impulsos, ora de atração, ora de aversão por algo sensível. São os desejos passionais que levam aos vícios da soberba, da inveja, da ira, da avareza, da gula.
O pecado fragmenta a humanidade. O pecador se fecha em si, cria um muro de divisão em relação aos outros. O acúmulo das perversões polui as estruturas coletivas que se tornam injustas e favorecem a propagação de uma cultura doente. Cada um é culpado pelas suas ações imorais. Ao mesmo tempo, cada um é também vítima do “pecado do mundo”. O pecado é uma catástrofe cósmica. Os cristãos têm especial responsabilidade para com a mãe terra. Têm a missão de serem guardiões e arquitetos do criado para transformá-lo em um templo.
O pecado é uma ferida na Igreja. O pecado cometido por um cristão é ainda mais grave por ofender o “corpo de Cristo”. A comunidade cristã não é só comunhão de santos, mas também comunhão de pecadores.
Diante deste quadro que parece ser invencível, o Evangelho oferece a certeza que o pecado pode ser vencido pelo Cordeiro de Deus que é manso, humilde e apaga o pecado somente com a força do Espírito Santo. Em vez de sacrificar cordeiros, o sacrificado é Cristo na cruz. Deus se oferece em sacrifício de modo inofensivo, que não mata e nem se impõe. Normalmente consideramos que quem muda o mundo é quem se impõe e quem é competitivo, por isso é tão difícil compreender que um cordeiro possa tirar o pecado do mundo.
Dom Rodolfo Luís Weber – Arcebispo de Passo Fundo











