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Da venda de coelhos ao episcopado: a trajetória de Dom Rodolfo Luís Weber Arcebispo de Passo Fundo relembra as origens no interior, a herança da imigração alemã, o trabalho na agricultura, a formação sacerdotal e os caminhos que o levaram ao episcopado

A história de Dom Rodolfo Luís Weber é marcada por simplicidade, trabalho, fé e um profundo senso de comunidade. Em entrevista concedida à Rádio Planalto, o arcebispo de Passo Fundo abriu o coração para relembrar sua trajetória de vida, desde as raízes familiares no interior do Rio Grande do Sul até a missão pastoral que hoje exerce à frente da Arquidiocese.

Filho de uma família numerosa, de nove irmãos, sendo cinco homens e quatro mulheres, Dom Rodolfo nasceu em um ambiente profundamente marcado pela cultura da imigração alemã. Tanto pelo lado paterno quanto materno, seus antepassados vieram da Alemanha ainda no século XIX, integrando os primeiros grupos de colonizadores que se estabeleceram no Rio Grande do Sul. Seus bisavós chegaram ao Brasil por volta de 1828, fixando-se inicialmente em regiões próximas a São Leopoldo, Novo Hamburgo e Bom Princípio, acompanhando o avanço da colonização ao longo dos rios.

A vida familiar sempre esteve ligada à educação e à fé. Seu avô paterno foi professor paroquial, uma figura central nas comunidades de origem alemã, onde escola e igreja caminhavam juntas. Atuou em diversas localidades do interior, como Linha Padre Eterno, Arroio do Meio e Poço das Antas, até ser impedido de lecionar durante a Segunda Guerra Mundial, período em que o uso da língua alemã foi proibido no país. Já pelo lado materno, a família participou do processo de colonização do oeste catarinense, onde enfrentou as dificuldades de abrir o mato, viver em casas simples de madeira e estruturar comunidades praticamente do zero.

Dom Rodolfo cresceu nesse contexto rural, marcado pelo trabalho e pela convivência comunitária. A infância foi vivida no interior, entre brincadeiras típicas da época, futebol de várzea, contato com a natureza e as responsabilidades da vida no campo. Após o pai deixar a função de professor, a família passou a viver exclusivamente da agricultura. Ainda menino, Dom Rodolfo ajudava nas tarefas da propriedade, plantando, cuidando dos animais e, ainda muito jovem, operando uma ordenhadeira mecânica.

Um episódio curioso lembrado na entrevista foi a criação de coelhos, que se tornou uma importante fonte de renda para a família e para muitas outras da região. A venda dos filhotes recém-nascidos sustentava investimentos em equipamentos como máquinas agrícolas, motosserra e equipamentos de ordenha. O fim repentino dessa atividade, em meados da década de 1970, gerou uma crise econômica que marcou profundamente as comunidades rurais locais.

A educação, no entanto, sempre foi prioridade. Segundo Dom Rodolfo, isso fazia parte da própria cultura alemã, que já valorizava a escolarização obrigatória desde os séculos XVII e XVIII. Em casa, os pais incentivavam os estudos e respeitavam profundamente as escolhas dos filhos, sem imposições ou pressões.

Foi nesse ambiente que surgiu a vocação religiosa. A forte tradição católica da comunidade de Bom Princípio, somada à presença marcante de sacerdotes e ao trabalho vocacional realizado pelo Monsenhor João Becker, despertaram ainda cedo o interesse pelo seminário. Dom Rodolfo ingressou na formação sacerdotal em 1976, ainda na antiga sexta série, iniciando os estudos no seminário de Bom Princípio e, posteriormente, em Gravataí, onde concluiu o ensino fundamental e médio.

A formação acadêmica seguiu com o curso de Filosofia, iniciado em 1983, no Seminário de Viamão, e posteriormente com Teologia na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Após o período de estágio pastoral, foi ordenado sacerdote em 5 de janeiro de 1991, em sua comunidade de origem, no município de Bom Princípio. A ordenação foi presidida por Dom Cláudio Colling, então arcebispo que marcou profundamente a história da Igreja em Passo Fundo.

Os primeiros anos de ministério sacerdotal foram vividos em Santo Antônio da Patrulha, onde Dom Rodolfo atendeu comunidades rurais, muitas de difícil acesso, enfrentando estradas precárias e o desafio do êxodo rural que havia esvaziado diversas paróquias. A experiência consolidou seu vínculo com o interior e com as realidades mais simples da população.

Em 1993, passou a atuar na formação de novos sacerdotes no Seminário Maior de Viamão, onde acompanhou seminaristas e exerceu a função de vice-diretor da Faculdade de Filosofia Imaculada Conceição. Em 1997, foi enviado a Roma para cursar mestrado em Filosofia na Pontifícia Universidade Gregoriana, residindo no Pio Brasileiro, espaço tradicional de acolhida de padres brasileiros em formação no Vaticano.

De volta ao Brasil, assumiu a reitoria do Seminário Maior de Viamão, função que exerceu por oito anos, conciliando atividades administrativas, acadêmicas e pastorais. Em 2008, passou a atuar em uma paróquia em Gravataí e, no início de 2009, foi nomeado bispo, assumindo a Diocese de Cristalândia, no Tocantins.

A nomeação de Dom Rodolfo Luís Weber para o episcopado, em 2009, levou-o para uma realidade completamente diferente daquela que conhecia no Rio Grande do Sul. Designado bispo da Diocese de Cristalândia, no estado do Tocantins, ele passou a vivenciar o cotidiano pastoral em uma região marcada por grandes distâncias, escassez de recursos, diversidade cultural e desigualdades sociais.

A diocese, localizada no sul do estado, abrangia extensas áreas rurais, comunidades ribeirinhas, assentamentos e pequenas cidades espalhadas por longos trechos de estrada. A presença da Igreja exigia constante deslocamento, espírito missionário e forte capacidade de adaptação. Muitas comunidades eram atendidas esporadicamente, o que tornava cada visita pastoral um momento de grande significado para a população local.

Dom Rodolfo destacou que a experiência no Tocantins foi marcada por uma Igreja simples, próxima das pessoas e profundamente comprometida com a realidade social. A vivência com agricultores familiares, povos tradicionais, migrantes e famílias em situação de vulnerabilidade reforçou nele a convicção de que o papel da Igreja vai além da celebração dos sacramentos, envolvendo também a escuta, o acolhimento e a defesa da dignidade humana.

O clima, a cultura e o ritmo de vida também representaram um desafio pessoal. Acostumado ao sul do país, precisou se adaptar ao calor intenso, às longas viagens e à dinâmica pastoral própria da região Norte. Ainda assim, segundo ele, foi justamente nesse contexto que amadureceu como bispo, aprendendo a exercer o ministério com maior sensibilidade, simplicidade e presença junto às comunidades.

Hoje, à frente da Arquidiocese de Passo Fundo, Dom Rodolfo Luiz Weber carrega consigo toda essa trajetória marcada pelo trabalho no campo, pela valorização da educação, pela fé vivida de forma comunitária e pelo compromisso com a formação humana e espiritual. Uma história que, como ele próprio destacou na entrevista, não serve para enaltecer uma pessoa, mas para enriquecer a todos, mostrando que cada vida, quando partilhada, se transforma em aprendizado coletivo.

Ouça a entrevista completa:

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