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A culpa é da mulher!

Esse foi o coro que veio depois da tragédia em Itumbiara, no sul de Goiás. Depois que o secretário de Governo da prefeitura local, Thales Naves Alves Machado, de 40 anos, matou os dois filhos, um de 12 e outro de 8 anos, após descobrir a traição da esposa.

Foi rápido. Antes mesmo do luto, antes mesmo das investigações, vieram os julgamentos. Tentativas apressadas de explicar o inexplicável, jogando toda a responsabilidade sobre uma mulher. Como se uma traição pudesse ser colocada na mesma balança que a morte de duas crianças. Como se problemas conjugais explicassem um ato definitivo, brutal e sem volta.

Não se trata de minimizar a traição. Trair dói. Fere. Rompe acordos, destrói a confiança, deixa marcas profundas em ambos os lados, e se engana quem pensa o contrário. Mas existe uma distância imensa entre causar dor emocional e, de forma consciente, decidir matar os próprios filhos. Não há comparação possível. Não há comparação honesta entre o sofrimento de um adultério e o vazio absoluto deixado pela perda de duas vidas que mal tinham começado.

Quando surgem comentários nas redes sociais, como “ele surtou”, “foi levado ao limite” ou “ela provocou”, o que está sendo dito, nas entrelinhas, é ainda mais assustador. É a ideia de que um homem teria algum tipo de direito sobre a vida da mulher e dos filhos, como se eles fossem extensão do seu orgulho ferido e pudessem ser usados como instrumento de punição.

Matar os próprios filhos não é desespero romântico. ESQUECE ISSO!

Não é impulso. É controle. É a tentativa de afirmar poder sobre a vida do outro. É o sentimento de posse levado ao extremo. É a escolha consciente de causar a maior dor possível, não só à mulher, mas a tudo que está ao redor. Duas crianças não são mensagem. Não são vingança. Não são argumento. São vítimas de um homem COVARDE!

Que tipo de homem acredita que pode decidir quem vive e quem morre porque foi traído? Que lógica transforma filhos em moeda emocional? Isso não é amor ferido. Isso é covardia. Covardia de quem não suporta perder o controle. De quem confunde vínculo com propriedade. Homem que vê mulher e filhos como posse não é trágico, é perigoso. E homem que mata os próprios filhos para causar dor não está amando demais. Está se colocando acima de tudo e de todos, como se sua dor fosse maior do que qualquer vida.

Talvez a reflexão mais dura seja essa no caso de Itumbiara. Enquanto houver quem procure culpados fora do autor do crime, enquanto houver quem relativize assassinatos para preservar uma ideia distorcida de honra masculina, novas tragédias continuarão sendo explicadas antes mesmo de serem evitadas. Entenda de uma vez por todas: traição é grave. Assassinato é irreversível. E nenhuma dor, por maior que seja, dá a alguém o direito de tirar a vida de outra pessoa.

No fim das contas, para muita gente, a culpa pelas duas crianças mortas foi da mulher que traiu, e não do homem que escolheu matar. A culpa não foi do homem que não entendeu que seguir em frente era a única vingança possível. E assim, no meio de uma família destruída, muita gente escolheu um caminho perigoso: culpar uma mulher para não encarar a brutalidade do que aconteceu. É mais fácil apontar o dedo do que admitir que um homem matou os próprios filhos porque foi COVARDE!

Traição destrói relações. Assassinato destrói vidas. E duas crianças não morreram por causa de um adultério. Morreram porque alguém decidiu que sua dor era maior do que o direito delas de continuar vivendo.

Enquanto isso não ficar claro para todos, outras histórias parecidas continuarão sendo explicadas em comentários nas redes sociais, justificadas e, pior ainda, normalizadas. E a pergunta que fica não é sobre fidelidade, mas sobre até quando vamos aceitar que homens tratem mulheres e filhos como posse e chamem isso de amor.

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