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“Não tenhais medo!”

Dom Rodolfo Luís Weber - Arcebispo de Passo Fundo

Na Bíblia encontramos com frequência o imperativo divino “não tenhais medo”. É muito confortador saber que Deus encoraja a comunidade e cada pessoa em particular a resistir, não se dobrar diante dos desafios, continuar o caminho em meio às dificuldades, assumir uma missão mesmo que se reconheça incapaz. Neste domingo, Jesus se dirige aos discípulos e por três vezes diz: “Não tenhais medo!” (Jeremias 20,10-13, Salmo 68(69), Romanos 5,12-15 e Mateus 10,26-33).

O medo é uma dimensão natural da vida. Desde a infância experimentamos medos que depois se revelam imaginários e desaparecem; depois emergem outros que têm fundamento concreto e precisam ser enfrentados e superados. Ainda temos um medo mais profundo, do tipo existencial, que por vezes termina em angústia fruto de um vazio. Jesus é ciente desta condição humana. 

Jesus sabe que seus discípulos, diante de situações reais de ameaça à integridade física e a questionamentos sobre as convicções de fé, poderão ser tomados pelo medo. Se forem ceder a ele ficarão paralisados, não irão testemunhar o que creem e nem anunciarão aos outros a boa nova do Evangelho. Jesus, ao enviar os discípulos, foi muito honesto com eles avisando dos perigos e dificuldades que teriam na missão. Mas também, apresenta os argumentos para não terem medo e viverem com coragem e serenidade a vida cristã. O que Jesus diz aos discípulos está dirigindo também aos cristãos de todos os tempos. No texto do evangelho apresenta as razões para não terem medo e depois recomenda a necessidade de dar testemunho como sinal de confiança.

Em primeiro lugar, afirma que “nada há de encoberto que não seja revelado”. O Evangelho adquire transparência mesma nas piores circunstâncias. Deus vai fazer conhecido o que está escondido, pois tudo está sob mão de Deus. A seguir afirma, que não “tenham medo daqueles matam o corpo, mas não podem matar a alma!” O corpo pode ser sofrer violência e ser exterminado, mas o princípio vital, a alma, a liberdade interior não está sob o domínio de quem mata. O terceiro argumento é a providência divina. Ao lembrar que Deus cuida dos pardais e de cada cabelo, muito mais vai dar atenção a cada pessoa. 

Se não há razões para se dobrar diante das ameaças humanas, diante de Deus cada discípulo deve cultivar o “temor de Deus”. Este sim, é sadio e necessário. O “temor de Deus” é um dos dons do Espírito Santo, que as Escrituras definem como o “princípio da sabedoria”, coincide com a fé em Deus, com o sagrado respeito pela autoridade de Deus sobre a vida do mundo. Quem teme a Deus está tranquilo até em meio as tempestades.

Se o medo paralisa, a presença amiga e protetiva de Deus lança o discípulo em missão. “Portanto, todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele diante do meu Pais que está nos céus”. Testemunhar, declarar Jesus Cristo no mundo não é feito somente de palavras, mas pertencer a ele com o coração e a vida. É fazer isto com alegria pois se está oferecendo algo muito valioso ao mundo. 

Sete séculos antes de Jesus falar aos discípulos, temos o testemunho do profeta Jeremias. Ele experimentou na própria carne o peso da missão profética. Resistiu diante do chamado de Deus para assumir a missão de profeta. Argumenta que era jovem e não sabia falar. Mesmo assim o Senhor lhe respondeu: “Para onde eu te enviar, irás, e o que eu te mandar, falarás. Não tenhas medo, pois eu estarei contigo para te livrar” (1,8). No texto da liturgia hodierna, o profeta confessa que há muitos que o injuriam, espalham medo ao redor, fazem falsas denúncias, querem fazê-lo tropeçar. Confessa a certeza que o Senhor está com ele e que os planos dos malvados serão conhecidos. Por fim convida: “Cantai ao Senhor, louvai o Senhor, pois ele salvou a vida de um pobre homem das mãos dos maus”.

Dom Rodolfo Luís Weber – Arcebispo de Passo Fundo

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