A milhares de quilômetros de Passo Fundo, um jovem de apenas 23 anos vive uma realidade que poucos brasileiros conhecem de perto. Entre treinamentos, missões, perdas e a constante ameaça de ataques, Nycollas da Silva Viana deixou a cidade onde nasceu para integrar as forças ucranianas na guerra contra a Rússia.
Em contato com o repórter Jeferson Vargas, o ex-aluno do Colégio Estadual Joaquim Fagundes dos Reis contou que a escolha de ir para a Ucrânia não aconteceu por impulso. Desde jovem, manteve ligação com o meio militar e, antes de deixar o país, serviu por dois anos no Exército Brasileiro. Mesmo depois de seguir outro caminho profissional, continuou interessado pela área.
Com o início da guerra, em 2022, passou a acompanhar o conflito e decidiu que queria participar diretamente daquele cenário. Para ele, a decisão de atravessar o mundo para uma zona de guerra representa um propósito pessoal.
“Para alguns dos meus familiares, isso foi loucura, mas, para mim, é meu propósito de vida”, afirma.
O caminho até a Ucrânia
O ingresso nas forças ucranianas começou com uma busca própria. Nycollas procurou um recrutador, passou por testes físicos e avaliações antes de ser aprovado. Após o alistamento, recebeu apoio da companhia para viajar até a Ucrânia e iniciou o processo de incorporação ao Exército.
Segundo o jovem, a entrada nas forças ucranianas ocorre por meio de contrato oficial, documentação e treinamento antes de qualquer participação em missão.
Na companhia onde atua, ele afirma que nenhum combatente vai para o campo de batalha sem estar formalmente vinculado ao Exército ucraniano. A rotina, segundo Nycollas, envolve hierarquia, regras, ordens e responsabilidades semelhantes às de qualquer outro militar.
Ele afirma que os estrangeiros incorporados possuem documentação ucraniana, conta bancária, recebem salário e têm acesso aos direitos previstos aos soldados ucranianos.
Soldado ou mercenário?
A presença de estrangeiros lutando pela Ucrânia é um dos tantos pontos controversos desse conflito. A Ucrânia afirma que aqueles que ingressam oficialmente em suas Forças Armadas passam a integrar a estrutura militar do país, com contrato, treinamento, remuneração, obrigações e direitos semelhantes aos dos soldados ucranianos.
Já a Rússia classifica esses combatentes estrangeiros como mercenários, argumentando que são pessoas de outros países participando de uma guerra que não envolve diretamente suas nações de origem e que recebem pagamento para lutar. A discussão não é apenas política, mas também envolve o direito internacional.
A classificação de mercenário possui critérios específicos e não se aplica automaticamente a todo estrangeiro que participa de um conflito. Um dos principais fatores analisados é a existência ou não de vínculo formal com uma força armada reconhecida.
Nycollas afirma que sua situação ocorre dentro do Exército ucraniano, e não por meio de empresas militares privadas. Ele explica que existem companhias privadas, chamadas PMC, mas que não possui informações sobre o funcionamento dessas organizações.
Diversos brasileiros no front
A presença brasileira na guerra da Ucrânia aumentou desde o início da invasão russa. Segundo levantamento publicado pela Deutsche Welle (DW), o Brasil está entre os países com maior número de combatentes estrangeiros mortos no conflito. Dados citados pelo Ministério das Relações Exteriores apontam que 35 brasileiros morreram e 92 estão desaparecidos. Os números exatos de brasileiros atualmente em território ucraniano não são divulgados oficialmente por questões estratégicas.
A participação brasileira também ganhou destaque pela existência de grupos formados por falantes de português dentro das forças ucranianas e pela divulgação de recrutamentos direcionados a estrangeiros. A Ucrânia passou a oferecer contratos específicos para estrangeiros como forma de ampliar seus efetivos após anos de guerra.
Sobre o interesse de brasileiros em seguir o mesmo caminho, Nycollas afirma que recebe frequentemente mensagens de pessoas interessadas em saber como funciona o processo.
“A minha ideia de falar sobre isso é porque muitas pessoas, amigos meus, pessoas próximas a mim, pessoas que às vezes eu nem conheço, me chamam querendo saber como é que é, como é que faz para ir, como é que faz para se alistar.”
Segundo ele, o processo começa com uma pesquisa sobre as brigadas disponíveis e o contato com os responsáveis pelo recrutamento.
“Tu entra, tu pesquisa a brigada que tu gosta, que tu gostaria de ir. Lá tem o contato. É só ir no Google e pesquisar ‘alistamento Exército ucraniano’. Vai ter vários links, várias brigadas.”
Nycollas recomenda aos brasileiros interessados algumas unidades específicas, mas destaca que a preparação para atuar no conflito exige dedicação.
“Obviamente não vai ser um treinamento leve, não vai ser uma coisa fácil. Muitas pessoas desistem. Tem a opção de desistir e ir embora, mas é uma coisa que, se a pessoa realmente quer e tem um propósito, ela vai passar por isso e vai conseguir fazer o objetivo que tem para fazer.”
A rotina dentro da companhia
Nycollas integra uma unidade de assalto formada por militares de diferentes nacionalidades. Por falar inglês, ele optou por atuar em um grupo com estrangeiros, formado por americanos, canadenses, coreanos e franceses. O ambiente multicultural exige adaptação constante, mas também proporciona uma troca de experiências entre militares de diferentes países.
A estrutura oferecida aos soldados, segundo o jovem, inclui alimentação diária, suporte médico e atendimento dentro da organização militar. Ele explica que a rotina não possui luxo, mas atende às necessidades dos combatentes. Para Nycollas, um dos fatores que influenciam sua decisão de permanecer no país é justamente a condição de vida que encontrou na Ucrânia.
A realidade da guerra
Apesar do treinamento e da preparação, o jovem afirma que a experiência no campo de batalha é muito diferente daquilo que aparece em filmes ou vídeos na internet. Ele relata que já perdeu dois amigos durante o conflito e que o impacto psicológico é uma das maiores dificuldades enfrentadas pelos soldados.
A guerra, segundo ele, é marcada pela incerteza. Um momento de tranquilidade pode mudar rapidamente com ataques de drones ou artilharia. Para o passofundense, o preparo emocional é tão importante quanto qualquer equipamento militar. Ele aponta os drones e os ataques de artilharia como algumas das principais ameaças enfrentadas atualmente pelos combatentes.
Uma nova vida longe de Passo Fundo
Mesmo convivendo diariamente com os riscos da guerra, Nycollas afirma que pretende permanecer na Ucrânia. O objetivo, segundo ele, é continuar na carreira militar, buscar promoções e construir uma vida no país, já que a documentação obtida após o ingresso nas forças ucranianas também pode abrir novas possibilidades dentro da Europa.
A decisão de permanecer está ligada não apenas à carreira militar, mas também à percepção de futuro. Para Nycollas, a Ucrânia, mesmo em guerra, oferece oportunidades que ele acredita serem difíceis de encontrar atualmente no Brasil.
A preocupação com a própria segurança
Durante a entrevista, Nycollas optou por não divulgar imagens do seu rosto. A existência de grupos em aplicativos de mensagens e sites que expõem informações de combatentes estrangeiros mostra que o perigo é cada vez mais real. A reportagem teve acesso a alguns desses grupos, que mostram imagens, perfis de soldados e diversos comentários relacionados a recompensas pela morte de combatentes. A preservação da identidade é uma medida de segurança diante da realidade da guerra.
A família e a saudade da cidade natal
A decisão de ir para um dos maiores conflitos armados da atualidade trouxe preocupação para familiares e amigos. Nycollas conta que não conhece o pai, mas afirma que sempre recebeu apoio da mãe, que ficou preocupada inicialmente, mas compreendeu a escolha do filho. Mesmo distante, ele diz sentir falta das pessoas próximas e da rotina em Passo Fundo. Entre as lembranças da cidade natal, uma das maiores saudades é algo extremamente simples: um xis salada, uma iguaria considerada especial por ele e que não encontra por lá.
A história do passofundense Nycollas da Silva Viana representa uma das muitas trajetórias de brasileiros que decidiram deixar o país para participar da guerra na Ucrânia. Entre aqueles que enxergam a missão como uma forma de ajudar um povo oprimido e aqueles que questionam a presença de estrangeiros no conflito, existe uma realidade comum: a guerra transforma vidas de forma definitiva.
Para o jovem Nycollas, a escolha já foi feita. Longe da família, dos amigos e da cidade onde nasceu, ele segue vivendo entre o propósito que acredita ter encontrado e os desafios de uma guerra que, segundo ele, nunca pode ser comparada ao que aparece nas telas.
Reportagem: Jeferson Vargas
Grupo Planalto de Comunicação














