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Passo Fundo aposta em tecnologia para elevar a produção e a qualidade do leite no RS Inteligência artificial, ordenha robotizada, sensores e análise de dados estão entre as tecnologias que ajudam a modernizar a produção de leite e melhorar a eficiência das propriedades

A tecnologia vem ganhando espaço na produção de leite e começa a transformar a rotina de propriedades rurais no Rio Grande do Sul. Sistemas de ordenha robotizada, sensores, equipamentos de análise e inteligência artificial permitem acompanhar individualmente os animais, identificar alterações de saúde e utilizar os dados para melhorar o manejo e a produtividade.

O movimento ganha importância no Estado, que está entre os maiores produtores de leite do Brasil. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Rio Grande do Sul produziu cerca de 4 bilhões de litros de leite em 2024, respondendo por aproximadamente 11% da produção nacional.

Na região Norte, onde está Passo Fundo, a atividade possui forte presença. Conforme a Universidade de Passo Fundo (UPF), a metade Norte do Rio Grande do Sul responde por aproximadamente 70% do volume de leite produzido no Estado.

É justamente nesse cenário que Passo Fundo aparece como um dos pontos de desenvolvimento de novas tecnologias para a cadeia leiteira.

UPF investe em inteligência artificial para o setor leiteiro

A Universidade de Passo Fundo está desenvolvendo o projeto “Tecnologias de Inteligência Artificial no Setor Leiteiro”, iniciativa que recebeu aproximadamente R$ 2,8 milhões em recursos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

A proposta é criar novas ferramentas para analisar informações obtidas a partir do leite e dos animais. A universidade está adquirindo equipamentos capazes de realizar análises mais detalhadas e pretende estruturar um centro de inteligência artificial voltado ao monitoramento da qualidade do leite.

O projeto reúne pesquisadores de diferentes áreas, incluindo profissionais ligados à produção animal e à computação. Entre as iniciativas está o projeto “Machine Learning Aplicada à Análise de Amostras de Leite”, desenvolvido no âmbito do Mestrado em Computação Aplicada da UPF.

Na prática, a inteligência artificial poderá ser utilizada para cruzar grandes volumes de informações. Dados físico-químicos do leite, indicadores metabólicos, celularidade, informações genômicas e características dos animais poderão ser analisados conjuntamente.

O objetivo é desenvolver modelos capazes de identificar padrões e auxiliar na antecipação de problemas relacionados à saúde, reprodução, metabolismo e condições ambientais dos rebanhos.

Com isso, o produtor poderá receber informações que auxiliem na tomada de decisões antes que uma alteração provoque uma queda significativa na produção.

Tecnologia permite acompanhar cada animal

A mudança provocada pela tecnologia também está relacionada à possibilidade de acompanhar os animais individualmente.

Em sistemas tradicionais, muitas decisões dependem da observação diária realizada pelo produtor e pelos trabalhadores da propriedade. Com sensores e equipamentos automatizados, informações sobre produção, alimentação, comportamento e saúde podem ser registradas continuamente.

Uma alteração na quantidade de leite produzida por uma vaca, por exemplo, pode ser identificada rapidamente. Quando esse dado é relacionado a outras informações, como alimentação, reprodução e características do leite, torna-se possível investigar com maior precisão o que está acontecendo com o animal.

Esse modelo também permite melhorar o uso dos recursos da propriedade, já que o produtor passa a trabalhar com informações mais específicas em vez de utilizar somente médias do rebanho.

Ordenha robotizada já é estudada na região

Entre as tecnologias que mais chamam atenção está a ordenha robotizada. O sistema substitui parte da rotina tradicional de ordenha por equipamentos automáticos capazes de identificar os animais e registrar informações individuais.

A vaca pode se dirigir voluntariamente ao equipamento, que realiza a ordenha e registra dados sobre a produção. Dependendo do sistema utilizado, sensores também podem auxiliar no acompanhamento da qualidade do leite e de características relacionadas à saúde do animal.

Na região de Passo Fundo, a tecnologia já é objeto de estudos acadêmicos.

Um trabalho desenvolvido na UPF analisou a viabilidade econômico-financeira da implantação de um sistema de ordenha robotizada em uma propriedade leiteira de Capão Bonito do Sul. O estudo avaliou os custos do investimento e o potencial de retorno da tecnologia, considerando as características da propriedade.

Outro estudo realizado na região analisou uma propriedade de Vila Lângaro com cerca de 90 vacas em lactação e duas estações de ordenha robotizada. A pesquisa avaliou estratégias de alimentação e a adaptação dos animais ao sistema.

Os estudos mostram que a automação não se resume à substituição da mão de obra. O funcionamento adequado depende de manejo, alimentação, conforto dos animais e capacidade de interpretação dos dados gerados pelos equipamentos.

Menos trabalho repetitivo e mais gestão

Uma das principais vantagens apontadas para a ordenha robotizada é a redução da necessidade de trabalho repetitivo. O produtor deixa de concentrar sua rotina exclusivamente nos horários fixos de ordenha e passa a atuar mais no gerenciamento da propriedade.

Ao mesmo tempo, a tecnologia gera uma quantidade maior de informações. O desafio passa a ser interpretar corretamente esses dados e utilizá-los para melhorar as decisões.

Outro benefício está na possibilidade de individualizar a alimentação. Sistemas robotizados podem liberar quantidades diferentes de concentrado de acordo com a produção e as necessidades de cada animal.

Dessa forma, uma vaca de maior produção pode receber uma estratégia nutricional diferente de outra que esteja em uma fase distinta da lactação.

Investimento ainda é um desafio

Apesar das possibilidades, a modernização exige investimentos significativos.

A instalação de uma ordenha robotizada envolve a compra do equipamento e adequações na estrutura da propriedade. Também é necessário treinamento para os trabalhadores e um período de adaptação dos animais.

Além disso, nem todas as vacas apresentam a mesma facilidade para se adaptar ao sistema. O manejo continua sendo fundamental para garantir que os animais frequentem o equipamento com regularidade.

Por isso, especialistas destacam que a tecnologia deve ser acompanhada de planejamento e conhecimento técnico. Um equipamento moderno, sozinho, não garante aumento de produtividade.

Passo Fundo como polo de inovação

O desenvolvimento dessas pesquisas coloca Passo Fundo em uma posição estratégica dentro da cadeia leiteira gaúcha.

A proximidade com uma das principais regiões produtoras do Estado permite que os estudos desenvolvidos pela UPF tenham relação direta com as necessidades enfrentadas pelos produtores.

A utilização de inteligência artificial, análise avançada do leite e automação pode representar uma nova etapa para a atividade, especialmente em um cenário de busca por maior produtividade, redução de custos, melhoria da qualidade e falta de mão de obra no campo.

A tendência é que o produtor tenha cada vez mais informações disponíveis para tomar decisões. Em vez de observar somente quanto leite cada animal produz, será possível analisar um conjunto maior de indicadores e identificar problemas antes que eles provoquem prejuízos.

Mais do que produzir uma quantidade maior de leite, a tecnologia pode ajudar o setor a produzir melhor, com maior eficiência, controle da qualidade, atenção à saúde e ao bem-estar dos animais e melhor aproveitamento dos recursos disponíveis.

Com a região Norte respondendo por grande parte da produção estadual e Passo Fundo concentrando pesquisas voltadas à aplicação de inteligência artificial no setor, a tecnologia começa a aproximar o campo de ferramentas que até pouco tempo estavam restritas a outros segmentos da economia.

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