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Uma semana após o grave acidente, três dos quatro socorristas do Samu retomam o trabalho em Passo Fundo

Na minha profissão, Deus já me permitiu encontrar muitas pessoas pelo caminho. Algumas histórias passam pela gente e seguem. Outras ficam. Ontem, pude encontrar novamente alguns amigos, pessoas que considero verdadeiros heróis e que, na maioria das vezes, seguem anônimos para grande parte da população.

Dessa vez, o encontro teve um significado diferente.

Eu estava diante de dois  dos quatro profissionais do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, o Samu de Passo Fundo, que, exatamente uma semana antes, estavam dentro de uma ambulância tentando salvar uma vida quando tudo mudou.

Não era apenas mais um chamado de emergência ou mais uma luta contra o relógio naquela manhã de sábado. Eram quatro profissionais lutando contra o tempo para tentar devolver à família um paciente que estava em parada cardiorrespiratória. A equipe realizava as manobras de reanimação enquanto seguia para o atendimento hospitalar. As mãos estavam ocupadas, a atenção concentrada e o objetivo era um só: salvar uma vida.

Foi nesse momento que a ambulância foi atingida.

A ambulância seguia pela Avenida Presidente Vargas quando foi atingida por um veículo que vinha pela Rua Dr. Vergueiro. Com a força do impacto, a ambulância tombou e, em poucos segundos, aquilo que era uma ocorrência de atendimento passou a ser também uma situação de emergência envolvendo os próprios profissionais.

Gritos, preocupação, pedidos de ajuda… Os quatro socorristas ficaram feridos. O motorista do carro também precisou de atendimento médico. O paciente, identificado como Jorge Antônio Manfro, de 65 anos, infelizmente não resistiu.

Mas, para aqueles quatro profissionais, a ocorrência não terminou quando a ambulância deixou de estar tombada no meio da rua. Vieram os ferimentos, os exames, a recuperação e tudo aquilo que não aparece nas imagens de uma reportagem. Veio o susto, o medo, a lembrança daquele acidente e, principalmente, a dúvida se conseguiriam voltar para a missão.

E eles voltaram!

E ontem, quando encontrei Rudimar Brizola e o Giulianno Vitor Mello de Oliveira, foi impossível não pensar em tudo o que aconteceu naquele dia. Ali estavam novamente, dentro do uniforme, prontos para seguir para mais um atendimento, depois de uma semana que certamente deixou marcas.

Porque voltar ao Samu não significa apenas estar recuperado dos ferimentos. É entrar novamente em uma ambulância. É ouvir uma sirene depois de ter vivido uma colisão. É voltar a atender uma pessoa sabendo que, por mais experiência que se tenha, ninguém controla tudo o que pode acontecer no caminho.

E, mesmo assim, eles voltaram.

Não porque o que aconteceu deixou de importar. Não porque o medo desapareceu de uma hora para outra. Eles voltaram porque existe uma missão que continua e porque, enquanto muitos de nós podemos escolher onde estar diante de uma emergência, eles são aqueles que são chamados para chegar.

Todos os dias, esses profissionais encontram pessoas no pior momento de suas vidas. Entram em casas, chegam a acidentes, atendem pessoas passando mal, fazem manobras de reanimação, estabilizam pacientes e tentam ganhar segundos quando a vida está por um fio.

Nós costumamos enxergar a ambulância chegando, ouvir a sirene e ver os profissionais correndo para atender alguém. Mas quase nunca paramos para pensar em quem está dentro dela.

Talvez essa seja uma das partes que mais me fazem refletir nessa história. Depois que me tornei repórter, fiz amigos e descobri os meus piores medos… encontrar em um acidente um familiar, uma criança ou um amigo. Naquele sábado, foram quatro amigos! E isso acabou comigo por um bom tempo.

Brizola e Giulianno já estão de volta às ruas, o Igor Vitali volta neste domingo. O quarto socorrista, Taylor Eduardo dos Santos, ainda terá que esperar um pouco mais. Ele sofreu luxação no ombro e fratura de clavícula, e precisa passar por avaliação e tratamento médico específico antes de retornar às atividades.

Cada um terá o seu próprio tempo de recuperação. Cada um sabe o que viveu naquele momento e o que precisou enfrentar depois. Há ferimentos que aparecem nos exames e outros que somente o tempo consegue ajudar a cicatrizar.

Mas ontem, ao reencontrar aqueles dois, confesso que enxerguei muito mais do que profissionais voltando ao trabalho. Enxerguei heróis que, mesmo depois de tudo, decidiram continuar.

E os heróis nem sempre estão nas capas dos jornais. Muitas vezes estão dentro de uma ambulância, atrás de um uniforme, correndo contra o tempo enquanto uma família espera por uma notícia. São heróis que quase nunca são vistos quando tudo dá certo. Chegam, trabalham, salvam, estabilizam e vão embora para a próxima ocorrência. E, muitas vezes, ninguém sequer sabe o nome deles.

Não quero romantizar a dor que eles passaram. Nem dizer que foi fácil. Muito menos transformar um grave acidente em uma história bonita. Foi difícil. Houve medo, houve dor e houve preocupação. Mas também teve muita coragem. A coragem de quem, depois de precisar ser socorrido, decidiu voltar a socorrer.

E talvez essa seja a necessidade desta matéria, o que eu quero guardar dessa história. Não a imagem da ambulância tombada, mas a dos profissionais que, uma semana depois, voltaram para dentro dela, fazendo aquilo que escolheram fazer todos os dias: lutar pela vida de alguém.

Reportagem: Jeferson Vargas

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