Pedro pergunta: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim?” A inquietação de Pedro e a resposta de Jesus revelam que estamos diante de um tema fundamental da convivência humana. O que fazer diante dos males ou pecados, na linguagem religiosa, com os quais convivemos diariamente? A origem do pecado está em cada pessoa que toma decisões erradas e tem consequências de sofrimento em si mesmo, no próximo, na natureza e em Deus. Como se relacionar com quem peca? Como resolver o que foi feito de errado? Cultivar rancor, raiva ou vingança? Aplicar a justiça? Ou perdoar, amar, ser misericordioso e compassivo? (Eclesiástico 27,33-28,7, Salmo 102(103), Romanos 14,7-9, Mateus 18,21-34).
A sugestão de Pedro é perdoar sete vezes. Coloca um limite razoável considerando nossa condição humana de perdoar. A resposta de Jesus leva Pedro ao “Reino de Deus”, isto é, ao modo de Deus pensar e agir em relação aos homens devedores. Para facilitar, Jesus conta uma parábola que fala de dívidas para facilitar a medida da quantidade.
A primeira cena da parábola reflete a relação de Deus Pai conosco. A nossa dívida com Deus é “uma enorme fortuna”. Tudo o que temos e somos vem de Deus. Afirma São Paulo na carta aos Romanos: “Se estamos vivos, é para o Senhor que vivemos; se morremos, é para o Senhor que morremos. Portanto, vivos ou mortos pertencemos ao Senhor”. As coisas essenciais da existência humana recebemos gratuitamente, como: a natureza; a vida; as habilidades e qualidades humanas de inteligência, liberdade; o sol que brilha cada dia; a chuva; o ar; a Palavra de Deus; o perdão; a morte salvadora de Jesus na cruz. É impossível restituir e pagar isto a Deus. Como dívida é uma “enorme fortuna” impagável. Para viver, é necessário passar da lógica da dívida para a lógica do amor gratuito. Na parábola, o devedor pede prazo para pagar, mas recebe o perdão da dívida. Deus nos ama e quer que o nosso relacionamento com ele não seja de devedores, mas de filhos.
A segunda cena da parábola descreve a relação entre dois companheiros de trabalho, isto é, a relação entre humanos. Também existe uma dívida a ser paga, mas de apenas cem moedas. Aquele que recebeu o perdão da “enorme fortuna”, cobra de forma violenta a “pequena” dívida do companheiro. Sob a ótica da justiça, não há nada de errado, pois as dívidas assumidas devem ser pagas. O pecado maior não foi cobrar a dívida, mas não tratar com misericórdia e compaixão o irmão devedor.
O ápice da parábola é a exortação final dirigida a todos nós: “Eu te perdoei toda a tua dívida, porque me suplicaste. Não devias tu também ser compaixão de teu companheiro como tive compaixão de ti?” Na oração do Pai Nosso Jesus incluiu como tarefa diária a súplica de “perdoai-nos as nossas ofensas”; e, como atitude vinculante ao perdão recebido condiciona, “assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Pedir perdão e perdoar cada dia é necessário porque nossa vida está em constante mudança. Cada dia se constrói o futuro. As pequenas faltas de cada dia devem ser levadas a sério, pois tornam a alma mais negligente e insensível. Santo Agostinho para falar do perdão diário usa a imagem dos grãos de trigo e das gotas de chuva. São pequenos grãos que enchem silos e gotas de água que formam rios. “Portanto, embora esses pecados sejam leves, são tão numerosos que, colocados juntos, acabam por se tornar um monte pesando em cima de ti. Deus é bom e chega a perdoar também esses dos quais a vida não pode ficar imune (…) para recuperar-se, pode-se recorrer ao remédio da penitência cotidiana”.
A finalidade da penitência cotidiana é a de manter a vontade humana unidade à vontade divina. A vida cristã amadurece no cotidiano onde se treina a aceitação das contrariedades, as derrotas, as crises, as pequenas cruzes. Elas são o exercício para fortalecer o cristão quando surgirem os grandes males que necessitam de perdão. Também os pequenos fatos são passagens indispensáveis.
Dom Rodolfo Luís Weber – Arcebispo de Passo Fundo










