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Ser bom

Dom Rodolfo Luís Weber - Arcebispo de Passo Fundo

O que é ser bom? Quem é bom? Quando buscamos o significado de bom nos dicionários encontramos vários significados: que tem todas as qualidades adequadas à sua natureza ou função; que corresponde ao que é desejado ou esperado; benévolo, bondoso, compassivo, misericordioso. A liturgia dominical ensina que Deus é bom, porque suas ações correspondem à sua natureza (Isaías 55,6-9, Salmo 144(145), Filipenses 1,20.24-27 e Mateus 20,1-16).

O primeiro convite dos textos bíblicos é aceitar a Deus assim como ele é. Não compreender e nem falar de Deus conforme a nossa medida e projeção humana. Segundo o profeta Isaías, o Senhor diz: “Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são como os meus caminhos”. O salmista que já dilatou a mente e o coração eleva louvores ao Senhor reconhecendo os atributos divinos. “Misericórdia e piedade é o Senhor, ele é amor, é paciência, é compaixão. O Senhor é muito bom para com todos, sua ternura abraça toda criatura”.

A parábola do Reino dos Céus contada por Jesus retrata alguns traços da bondade divina. A linha narrativa da parábola conta que um patrão foi contratar trabalhadores para fazer a colheita da uva. Como sabemos, a colheita da uva deve ser realizada em pouco tempo e precisa muita mão de obra, por isso o patrão começa contratando da madrugada até o final da tarde. No final do dia é feito pagamento, igual para todos, como determinava a lei mosaica. O pagamento igual gera protesto dos primeiros que consideram injusto o pagamento recebido. O patrão responde que foi justo no pagamento e pergunta aos descontentes se estão com “inveja, porque está sendo bom?”

É uma parábola sobre o “Reino dos Céus”, portanto pretende ensinar sobre o pensar e o agir de Deus em relação às pessoas para se tornar referência do agir dos ouvintes. A primeira atitude de Deus que desponta é a de que Ele deseja que todos participem do seu reino. O Senhor sai continuamente, em todas as horas, para chamar e chamar de novo. Em toda a história da humanidade e na história pessoal de cada pessoa ressoa constantemente o convite para participar do Reino de Deus. Deus não é seletivo no convite e nem age com preconceitos. Seu convite é universal e o tratamento também é igualitário.

O segundo sinal da bondade de Deus é ser justo. “É justo o Senhor em seus caminhos, é santo em toda obra que faz”, reza o salmista. Todos os contratados receberam o pagamento combinado. Os trabalhadores da primeira hora protestaram a forma de pagamento igualitário, mas o Senhor argumenta que o contrato foi cumprido. A parábola reforça a necessidade que todas as relações sejam marcadas pela justiça. É um fundamento indispensável das relações humanas e sociais.

Ao final da parábola, Jesus afirma que Deus é bom. “Por acaso não tenho direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?” Ao pagar o mesmo salário aos que trabalharam algumas horas, revela que Deus é bom. Isto é, vai além da justiça.  Os últimos não receberam proporcionalmente aos méritos, mas receberam conforme a necessidade do seu sustento e da família.

Bento XVI, na Carta encíclica Caridade na Verdade, escreve: “A caridade supera a justiça, porque é dar, oferecer ao outro do que é “meu”; mas nunca o que é “dele”, o que lhe pertence em razão do seu ser e do seu agir. Não posso “dar” ao outro do que é meu, sem antes lhe ter dado aquilo que lhe compete por justiça. Quem ama os outros com caridade é, antes de mais nada, justo para com eles. A justiça não só não é alheia à caridade, não só não é um caminho alternativo ou paralelo à caridade, mas é “inseparável da caridade”, é-lhe intrínseca. A justiça é o primeiro caminho da caridade ou, como chegou a dizer Paulo VI, “a medida mínima” dela. […] Por outro, a caridade supera a justiça e completa-a com a lógica do dom e do perdão. A “cidade do homem” não se move apenas por relações feitas de direitos e de deveres, mas antes e sobretudo por relações de gratuidade, misericórdia e comunhão” (n.6).

 

Dom Rodolfo Luís Weber – Arcebispo de Passo Fundo

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