Para retirar um tumor encostado na medula espinhal de uma paciente de 64 anos sem abrir a coluna com um corte tradicional, uma equipe do Instituto de Ortopedia e Traumatologia de Passo Fundo (IOT), no Hospital São Vicente de Paulo (unidade Uruguai), recorreu a uma técnica ainda rara pelo mundo: a retirada do tumor por endoscopia, com acesso pelos dois lados da coluna, através de um furo de apenas 8 milímetros.
A cirurgia foi realizada em 2023 pelo médico ortopedista Diego Heredia, especialista em coluna vertebral do IOT Passo Fundo, mas só veio a público agora, no dia 26 de setembro, durante o Spine Endoscopy Experience 2026. O evento reuniu cirurgiões de coluna da região em Passo Fundo e integrou as comemorações dos 50 anos do IOT.
Como foi a cirurgia
O tumor estava localizado na vértebra T8, em contato direto com a medula espinhal, e o procedimento foi dividido em duas fases. Na primeira, veio a separação entre o tecido tumoral e a medula, com uma margem de segurança de 3 mm, uma etapa delicada, pela proximidade com a medula. Na segunda fase, com o tumor já retirado, o médico estabilizou a coluna. Como parte da vértebra doente precisou ser removida, a região perdeu sustentação própria e passou a depender de um suporte mecânico, com quatro parafusos conectados por duas barras de 160 milímetros, inseridos de forma percutânea, por pequenos acessos.
— “O normal é fazer a fixação em até três vértebras. Quando envolve quatro, a dificuldade aumenta bastante, e cinco é ainda mais raro. É preciso mais habilidade e mais paciência, porque operamos sem a visão direta que existe na cirurgia aberta” — explica Heredia.
Por que a técnica faz diferença em casos de câncer
Para pacientes com tumores na coluna, o tempo de recuperação é decisivo. Depois da cirurgia, é preciso retomar a radioterapia o quanto antes, já que esse tratamento age sobre o tecido tumoral remanescente. Um corte tradicional agride a pele e atrasa esse retorno, que pode levar até 40 dias; com a endoscopia, esse intervalo cai para 7 a 10 dias.
— “A doença tumoral é uma corrida contra o tempo. Só quem enfrenta um tumor sabe a pressa que existe para retomar o tratamento. Cada dia conta.” — afirma Heredia.
A técnica minimamente invasiva traz ainda outras vantagens: como o músculo não é cortado, a quantidade de tecido que precisa cicatrizar é muito menor, o que acelera a recuperação, especialmente relevante para pacientes oncológicos, que muitas vezes já estão com a imunidade baixa. O sangramento durante o procedimento também é bem menor do que nas técnicas convencionais, o que reduz o risco de complicações e permite usar menos anestésico em pacientes já debilitados.
Como resultado, a paciente recebeu alta poucos dias depois da cirurgia, já andando e podendo voltar a aproveitar o tempo com a família. O procedimento foi realizado com um endoscópio monoportal equipado com navegador de duas dimensões, tecnologia que permite ao cirurgião visualizar a área operada com precisão, mesmo por um acesso tão pequeno.
Um dos poucos casos do tipo no mundo
Cirurgias endoscópicas para retirada de tumores na coluna ainda são raras: segundo a equipe médica, existem apenas oito casos documentados desse tipo de abordagem, distribuídos em nove países, três deles na América Latina, incluindo o do Brasil. O primeiro caso brasileiro conhecido foi realizado em São Paulo, também em 2023, pelo médico Marcos Serra, que já fez três procedimentos do tipo acessando o tumor por apenas um lado da coluna, caso publicado na revista científica NeuroSpine. Já a cirurgia feita em Passo Fundo se diferencia por acessar o tumor pelos dois lados da coluna, uma variação técnica que amplia o desafio e reforça o caráter inédito do caso.
Quem é Diego Heredia
Diego Heredia soma mais de duas décadas de carreira dedicada à cirurgia da coluna vertebral, dos quais os últimos cinco anos à frente da área no IOT Passo Fundo, hoje referência nacional em cirurgias minimamente invasivas da coluna. Ao longo da carreira, já atendeu mais de 30 mil pacientes e operou cerca de 4 mil, dos quais 500 por meio de técnicas minimamente invasivas. Para o médico, a comparação com a cirurgia tradicional ajuda a entender o avanço: antes, os procedimentos na coluna exigiam cortes maiores, traziam mais riscos e impunham uma recuperação mais longa; hoje, as técnicas minimamente invasivas permitem tratar o problema com menor agressão ao paciente, menos sangramento, menos complicações e menor tempo cirúrgico.
Passo Fundo como polo de referência
Passo Fundo se tornou referência para pacientes de outras regiões do Estado, incluindo da capital, pela combinação entre estrutura hospitalar, tecnologia avançada e experiência médica em procedimentos de alta complexidade. A chegada de novas plataformas robóticas para cirurgias ortopédicas, hoje voltadas a quadril, joelho e ombro, com avanços também esperados para a coluna, reforça esse papel da cidade como polo de inovação médica. Hoje, o grupo do IOT reúne um dos maiores volumes de cirurgias endoscópicas da região, com mais de 500 procedimentos realizados nas regiões cervical, torácica e lombar da coluna.
Falta de informação ainda é uma barreira
Apesar dos avanços, o acesso à informação sobre as técnicas minimamente invasivas ainda é desigual entre os pacientes. Segundo Heredia, cerca de 30% já chegam ao consultório informados sobre a possibilidade de procedimentos menos agressivos; os outros 70% desconhecem essas alternativas e muitas vezes carregam receios ligados a experiências anteriores, de cirurgias mais invasivas, com cortes maiores, mais sangramento e recuperações mais longas.
— Ampliar a divulgação e o acesso à informação é essencial para que mais pessoas conheçam as alternativas de tratamento já disponíveis — afirma o médico.
Sobre o evento
O Spine Endoscopy Experience 2026 aconteceu no dia 26 de setembro, no Hotel Villa Vergueiro, em Passo Fundo, e reuniu cirurgiões de coluna de diferentes regiões do Brasil, muitos deles formados no próprio IOT, para debater os temas mais atuais da cirurgia endoscópica. O encontro integrou as comemorações dos 50 anos do IOT Passo Fundo.













