A pregação de Jesus é performativa, isto é, provoca mudanças na vida dos ouvintes.
Os Evangelhos registram as reações dos ouvintes e a tomada de posição deles. “Os fariseus
ouviram que Jesus tinha feito calar os saduceus. Então eles se reuniram em grupo, e um deles
perguntou a Jesus, para experimentá-lo: 'Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?'” Jesus,
como mestre, responde não só para quem o estava provocando, mas para todos os que tinham
ouvido ou ouvirão seu ensinamento. “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de
toda a tua alma e de todo o teu entendimento! Este é o primeiro mandamento, e o segundo é
semelhante: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. Toda a Lei e os profetas dependem
desses dois mandamentos”. (Êxodo 22,20-26; Salmo 17(18); 1 Tessalonicenses 1,5-10;
Mateus 22,34-40).
A palavra “amor” é muito usada e até abusada, à qual associamos significados
completamente diferentes. A reflexão aqui se concentra na sua compreensão e prática na
Sagrada Escritura. Na Bíblia, são usadas três palavras gregas relacionadas ao amor — eros,
philia (amor de amizade) e ágape —, sendo que os escritos bíblicos privilegiam a última.
Como Jesus ensinou, ama-se “de todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento”.
Portanto, é a pessoa inteira que ama como criatura unitária: corpo, espírito e alma. Na ação de
amar, sempre está envolvido o ser humano integralmente. A fé bíblica não constrói um mundo
paralelo ou contraposto ao significado do amor no mundo.
A Lei e os profetas apresentam um Deus que ama. O seu amor é um amor de eleição.
Entre os povos, escolheu Israel e ama-o com a finalidade de curar toda a humanidade. Os
profetas Oséias e Ezequiel qualificam o amor de Deus pelo seu povo como paixão, usando
metáforas do noivado e do matrimônio: um amor que vai em busca do povo, mesmo não
sendo correspondido. O amor apaixonado de Deus pelo povo é, ao mesmo tempo, um amor
que perdoa e reconcilia.
No Novo Testamento, o amor de Deus ficou plenamente compreensível aos humanos.
Na pessoa de Jesus Cristo, todos os conceitos e ensinamentos anteriores se tornam carne e
realidade. As parábolas da ovelha perdida, do filho pródigo e outras constituem a explicação
do seu próprio ser e agir ao ir ao encontro de quem estava perdido. Na morte de Jesus na cruz
para levantar e salvar o homem, o amor se manifesta na sua forma mais radical. É a mais
perfeita manifestação do amor, compreendido como ágape.
Tendo o amor de Deus como primeiro mandamento, compreende-se o amor ao
próximo como segundo mandamento semelhante ao primeiro. O amor de Deus pelo povo,
contado na história da salvação, é a luz que orienta o amor ao próximo. Em 1 Coríntios 13,4-
7, São Paulo apresenta algumas características do amor bíblico ao próximo. O amor é
paciente. A paciência não deixa a pessoa agir pelos impulsos e evita agredir, porque as
pessoas não são perfeitas. Amar é uma atitude de serviço que beneficia e promove os outros.
O amor cura a inveja. A inveja é uma tristeza pelo bem alheio, demonstrando que não nos
interessa a felicidade dos outros porque estamos concentrados em nós mesmos. O amor não é
arrogante, isto é, quem ama não precisa manter-se no centro nem considerar-se maior do que
os outros. O amor é amável, detesta fazer os outros sofrerem. O amor é desprendimento, isto
é, amar mais do que ser amado. O amor é sem violência interior. O amor é perdão, pois
procura perdoar e ser perdoado. O amor é totalidade, pois desculpa, confia, espera e suporta.
O livro do Êxodo, lido na liturgia, exemplifica o amor ao próximo no tratamento fraterno do
estrangeiro, no respeito às viúvas, no empréstimo de dinheiro e na cobrança das dívidas.
A resposta de Jesus ao afirmar que amar é a síntese da Lei e dos profetas oferece a
chave de leitura para ler e compreender toda a Escritura. As dúvidas que surgirem na
interpretação bíblica são esclarecidas pelo modo como Jesus viveu, pois sua vida transformou
a Escritura em fatos.
Dom Rodolfo Luís Weber – Arcebispo de Passo Fundo










